Revestido

Eis que o pobre coração põe-se a prova, poderia sofrer outra queda e manter o equilíbrio, em seu individual abrigo, protegido, fechado, a sete chaves do paraíso.
Pessoal e intransferível, ainda assim ferido pelas paredes do seu cubículo particular, tem se debatido e batido constante, como gente grande, já sabe amar.
Eventualmente, descobriu do frio a fórmula para ser habitado, ter companhia nos domingos solitários, bastava emendar os sorrisos aos tropeços, os discos, os textos, e repetir-se em voz alta, existir, ser citado, ter acertado, ser estada, estrada e caminho, e o destino sabotar.
Por vezes, vazava de seu abismo sem contexto, invertia, gravitacionava desatento, por isso tratou-se de ser visto, curado e invisível deixou de ser sentido, o seu corpo, no ócio da noção começou a desmembrar-se inaudível, contendo a insaciável angústia e a intratada ferida, a sangrar versões dos versos, rimados as versões do ego, ritmado.
Por fim, apesar da resistência, não poderia fechar a porta, dobrar a esquina, ir embora. Seria fácil se pretendesse deixar latente sua vontade, mas há gente que não podemos deixar, simplesmente, é gente demais em nossa mente, a liquidificar, em soro, curtido em sal grosso, resistindo a queda, entretanto, insistente, entrou.

Antevisto

Um olhar foi suficiente, inaderente, não consegui soltar. Foram dois segundos e já tinha razões para ceder ao absurdo, atraído pelo escuro, inerte a tudo e um único intuito, te observar.
Naquele segundo desconsiderei todo o ódio do mundo, sabemos, o amor não é seguro, mas os sedentos olhos escuros moldam o abraço assimétrico, a menos de um metro, não formam-se tetos, sílabas, versos, apenas te observo.
Em cifras mastigo a ansiedade, não reconheço se é verdadeira sua companhia, todavia também te acompanho, sempre perdido, tentando, ao seu lado, olho disfarçado, o suficiente para que você note o desviado novo traçado que moldei de você.
No pouco que represento em seu dicionário, te cobro um sílabo ao contrário, me fervo a provar-te em teoria, como oportunidade, existiria, a te escolher, encolheria o coro de amigo, nos encaixaria, em tempo e melodia, e mesmo tardia, ressoa estática, ultrapassa, me deixa passar, sente, estala, ouve, esta lá, estou aqui e estará, a te esperar.

Mudo

Escolhi desconstruir a memória do que sabia de mim, já era hora, vinha a tona e ia, pelas bordas, trazendo o acaso, e no ralo iam os cabelos cacheados, a renovada verdade no espelho, o toque do desespero, me vi, parado, em ecstasy, viciado, o sapato apertado, muitos passos atrasado, como pude ter ficado, exatamente do lado direito, perdido, desencadeado, no canto, apertado, esperando acelerar, tecendo surtir, torcendo sentir, pobre vertebrado, não se move, entalado, se desafia, trato é trato, ora liberdade, reza, inseguro na pressa, em cima do muro, sai do casulo, é chão demais a andar de lado, prende-se ao casaco, sente o frio entrar, senta-se a esperar, intacto, a consequência do impacto, já era hora.

10:10

Pelo reflexo me entrego, sei que pode enxergar, é intencional, note a direção do meu olhar, aponta o retorno, o céu, o seu olho, tudo refletido, a te observar.
E quando o fecho, imagino o resto, uma vida passando entre um e outro ponto, vejo como seria, começa a viagem, vem, a verdade encubida de me derrubar do salto, e o atraso me cegando o encanto, trago, deixo o amor esfumaçar o pulmão, deixo ser o arco, entre a predileção e o fracasso, rumo ao centro, quase me perco em imaginação, preso no reflexo da sua íris, alugado, seu olhar pertencente ao meu dicionário, guardo, inspiração ao meu diário, as nuvens movem-se de lado, o sol nos vê calado, esquenta o coração resfriado, o leva a outro estado, entrega-se ao fardo, passou o ponto, desço no outro, se me acompanhar.

Ele ascender

Ainda tenho impressa a primeira vez que te vi na pressa, era uma fresta que me permitia enxergar na multidão, a distância de um passo, os detalhes encaixavam a memória em um quebra cabeça, estava formada a cadeia elétrica de um neurônio, viajando por dentro, criando em contento a sinergia de um sentimento que não encaixa ao tempo, foi por pouco e em um momento não era mais, naquele minuto não havia muito que convenceria a obsessiva agonia de que era momentâneo, mas por detrás dos panos algo acontecia, movia-se em sintonia ao começo das incidências, coincidiu.
No começo eu entendia, a vida em sua mesmice cotidiana nos trazia hora ou outra a encontrar a vista, era comum desviar-nos coordenados, cada um para o seu lado, o olhar focado na janela e nada existia, pelo menos era o que se passava, todos aqueles dias, nada ficava em harmonia, era o que era, sem nome dado, sem dardos lançados.
De lado enxergava seu novo penteado, a nova tatuagem, o novo trejeito envergonhado, um movimento brusco, o toque dos nossos músculos, a camisa repetida, sua feição sempre distinta, o olhar fixo a tela, a vida correndo do lado de fora da janela e o controle absoluto da respiração, sentia a energia quase elétrica, era absurda a sincronia que existia e ali cessava, fingia calma, mas esperava qualquer palavra dirigida, o menor semblante de vida, te esperava.
Não lembro de haver linguagem, mas tenho a lembrança da sua voz a dizer que também lembra, que está impressa em sua artéria, bombeando em cada veia, a dar caminho ao que colidia a realidade de toda expectativa circulando em teoria.
Minutos, horas, anos, a rotina nos trouxe ao novo, já não havia presença e deixou de ser visível, esquecemos a sentença que levava o vício a rodar. Agora é de vez em quando, dias sim, dias não, mais dias não, mas nos dias sim, até sua sombra me conforta, a distância, a espera pela porta, quando estou ao seu lado, pareço estar descalço, instável sentimento, não acompanho os passos, mas tento, e quando sem sapatos, te deixo passar.

Destino

Desconsidero ir embora, assumo a perda da direção, não sigo, apenas caminho, cego me guio, me convenço de não atender seu sinal de perigo, ainda assim estou ao seu encontro, me deixa tonto considerar o quanto o destino tem sido desonesto, me testo, me entrego a última sensação de um coração pedinte, o contento momentâneo do seu calor vindo junto ao vento. Quem dera explicar a falta como espera, mas já não me emprestam visão, e estou prestes a ver do escuro, a silhueta, cego por te ver. Ainda sem caminho, pegadas levadas pelo destino, desce a força, o roteiro ensaiado, sua imagem, tudo a ver. Tê-lo ao meu lado foi escolha, a ressaca, a bonança, subtraído abraço, o olhar ao espaço, derivando à deriva, em alta voltagem e abaixo a dor, abaixo amor, abaixou.
Foi a última escolha, deixei descer entalado com todos os outros sentimentos que haviam ficado, deixei de ser.

Ceder

Não acredito, é história, toda essa bagagem e você não se importa de ir embora ? Sabe, tenho espaço, em um ou outro canto penduramos alguns quadros, mas não faltará vazio a preencher, não faltará vontade.
Verdade, é o seu medo, de encontrar o que deseja em meu beijo, de abraçar o abismo, cair sem direção, sem sentido, não atar sua mão.
As árvores ainda passam despercebido, perdi a conta de quantas vimos no caminho, viajamos metros ao quadrado parados em um cômodo revirado, visitamos o desvio do senso, o triângulo circulando nossos passos, 3 pontas de nós.
Desligado, apagou­ se para impedir incêndio, é frio, é queda, somos tudo que prevemos, antes de virar o ponteiro, meia noite, meio dia, enquanto dividem o tempo, conto no espelho, vejo no reflexo o contrário do desejo, não sei se sou abrigo ou refúgio, não acredito, é história, com tanta bagagem, de verdade, deseja ir embora?

Te peço, impeço a passagem pela porta, te chamo, retorna, não precisa ir embora. Perde a rota, esquece o tempo, sequestro o seu ímpeto segredo, me recompensa, me aqueça, deixa incendiar.

A primeira vista

Sim, eu me lembro, era como fechar os olhos no deserto e sentir a areia tornar em oceano, uma sensação de alívio e contento, a total satisfação dos meus desejos.

Foi no máximo um movimento do relógio, foi o suficiente. Era como sentir todos ao meu redor ao mesmo tempo, um surto empático, um flamejo, como roubar todo o amor do ar, todo em mim, todo para mim, a presença de uma divindade, o arrepio da sanidade.

Foi um sopro e as cartas ainda estavam ali, paradas, esperando um toque para desabar, ordenadas como o destino, como se eu soubesse que esse era meu objetivo, o sacrifício da premonição, a pena que valia a pena, toda energia do universo no meu peito.

Se foi amor? Foi um olhar, um segundo de aceitação do absurdo e passou, como qualquer sensação, ficou apenas a falta, a necessidade de preenchimento, que outrora voltaria a ser, voltaria a minha consciência como reflexo do hábito de não estar preparado, inconstante.

Contra-tempo

Você, meu contratempo, não é surpresa, são as expectativas, toda falácia e ainda falta palavras, falta coragem para reverter em fala o que vaza aqui, vazão de vontades, me esconde verdades, restrições.

Espera, ainda não parti, inteiro com duas metades, apresento o denominador comum, o espaço conhecido em lugar nenhum, o mesmo vácuo que determinou-se amor, o mesmo vácuo que nos formou.

Pressinta, é gasoso, está na mira, invisível a olho nu, me despiu de mim, me trouxe a nado, nada a me encontrar, atrai, não me deixa ir embora, estica um pouco, cede ao torno, deixa voltar.

Vírgula, pausa na respiração, percebe, estamos presos ao não, mas desce, solta o corrimão, fica, me leva, desconstrói a metade, dois terços em ti, dois terços aqui, esquece a sobra, eu e você,  adivinha,  contra o tempo.