Espirais (6)

Perdeu a inspiração, mas ainda estava viva, de forma desequilibrada inspirava, todavia parara de escrever por dias enquanto não encontrava vazão para ter fala, parecia que tudo estava ali, detalhado nas páginas rasgadas há muito tempo abandonadas. Quanto tempo se passou, quanto amor desperdiçou. No fundo sabia que a cada sentimento vestido de palavra se esvaziava, era o que mantinha a balança estabilizada, tudo o que sentia estava preso em suas fábulas. Nunca deixara ficar preso em sua pele, mas sua alma em segredo se queixava, era o incomodo ardor que sentia nas madrugadas, os sonhos que apareciam como aviso do que guardou na porta atrás da escada, escondida, atrás da parede que subiu ao redor de toda pulsação incontrolada, o mesmo lugar de onde surgiam as vontades inexplicadas. Naquela obstante sensação percebera que tudo que há tanto guardava, os capítulos de uma história incontada, não formavam apenas a memória que a bloqueava, formavam também a força que precisara para inspirar novamente, perder-se dentro do subconsciente, pender a balança, e mesmo que arda e o ciclo responda ao precedente, mesmo que o amor desmembrado esteja na patente, recomeçou, rendeu-se. No fim o retrato lembrava pouco dos fatos, era o gosto conhecidamente esquecido, o gatilho virado ao inimigo, era nada, estava contido. Não voltou a inspirar ritmadamente, mas pela primeira vez viu-se além de refletir, existia sozinha, era de verdade e sorria, estava solta de sua própria armadilha, respirou.

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