Espirais (1)

Bate a porta, 5 passos dados, ainda não acostumada com a ideia de ter deixado, era como um filme de baixo orçamento, todos aqueles momentos em seu pensamento, não conseguia evitar. Se pudesse detalhar como se sentia, diria que não há caminho, mesmo tendo a vista destino, é como acompanhou o último sorriso, a miragem do abismo que escalará, a última memória lívida de uma vida que pouco foi vivida e ficou lá, na batida da porta, 5 passos atrás.
Chovia, como em todas manhãs desses dias, o tempo insistente em manter a harmonia, torna-se o espelho da agonia, bastava olhar para as nuves carregadas, como a vertigem, uma aura, toda angustia ali acumulada e caia sobre os ombros, pesadas batiam, respigavam desordenadas, as gotas juntas as lágrimas, estava sozinha, se acompanhava, fazia companhia a sua alma, mas não voltaria, mantinha o carma, não era sua culpa.
Ainda não chegou a lugar algum, mas a algum lugar chegaria, andava em direção contrária ao rumo de casa, já não era lar, não depois que partiu e disse que nunca retornaria, não depois de todas palavras soltas na calçada, mas onde poderia ir? Não lhe sobraram muitas migalhas, caminhos para seguir, enjaulada, era hora de ceder do orgulho, mergulhar fundo, deixar-se afogar.
Guiada por sua maldição, mudou sua direção, caminhava pela ruína, era tudo que conhecia e de onde nutria os versos de sua poesia, como poderia evitar? Como conteria a besta prestes a se libertar? Uma fração de mudança no tempo, fechou os olhos para o contento, percebeu estar em queda livre, dentro do próprio sofrimento, sim, era confortável, sentir o calor proveniente do seu abraço, era isso e nada mais
Na ponta do iceberg, apenas um cubo de gelo no oceano gelado, duraria os segundos necessários para liquificar.
Tic, tac, ouvia os segundos embalados pela rotina e pelo desespero, despreparado, o relógio traz o tempo ao seu lado, passa devagar como as batidas do coração, desacelerado, perdeu a fala, o compasso, inerte definia seu estado e como tem passado, todo passado revivido em seu quarto, pudera se livrar dos quadros, dos porta retratos, das gavetas cheias de folhas e retalhos, fragmentos de memórias embutidos nos desenhos das paredes, nos descascados.
Fresca a lembrança em seu subconsciente, o passado era sua fraqueza, a única forma de lembrar dos momentos acelerados, dos mesmos sorrisos que lembrara ao sair do carro, 5 segundos e todo o passado volta a atormentá-la. Ah! Se apenas tivesse passado, mas passa a todo tempo, presente desfigurado, sem sentido ou noção do tempo, presa no delírio, ele preso em teu peito, podia sentir.

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