Ele ascender

Ainda tenho impressa a primeira vez que te vi na pressa, era uma fresta que me permitia enxergar na multidão, a distância de um passo, os detalhes encaixavam a memória em um quebra cabeça, estava formada a cadeia elétrica de um neurônio, viajando por dentro, criando em contento a sinergia de um sentimento que não encaixa ao tempo, foi por pouco e em um momento não era mais, naquele minuto não havia muito que convenceria a obsessiva agonia de que era momentâneo, mas por detrás dos panos algo acontecia, movia-se em sintonia ao começo das incidências, coincidiu.
No começo eu entendia, a vida em sua mesmice cotidiana nos trazia hora ou outra a encontrar a vista, era comum desviar-nos coordenados, cada um para o seu lado, o olhar focado na janela e nada existia, pelo menos era o que se passava, todos aqueles dias, nada ficava em harmonia, era o que era, sem nome dado, sem dardos lançados.
De lado enxergava seu novo penteado, a nova tatuagem, o novo trejeito envergonhado, um movimento brusco, o toque dos nossos músculos, a camisa repetida, sua feição sempre distinta, o olhar fixo a tela, a vida correndo do lado de fora da janela e o controle absoluto da respiração, sentia a energia quase elétrica, era absurda a sincronia que existia e ali cessava, fingia calma, mas esperava qualquer palavra dirigida, o menor semblante de vida, te esperava.
Não lembro de haver linguagem, mas tenho a lembrança da sua voz a dizer que também lembra, que está impressa em sua artéria, bombeando em cada veia, a dar caminho ao que colidia a realidade de toda expectativa circulando em teoria.
Minutos, horas, anos, a rotina nos trouxe ao novo, já não havia presença e deixou de ser visível, esquecemos a sentença que levava o vício a rodar. Agora é de vez em quando, dias sim, dias não, mais dias não, mas nos dias sim, até sua sombra me conforta, a distância, a espera pela porta, quando estou ao seu lado, pareço estar descalço, instável sentimento, não acompanho os passos, mas tento, e quando sem sapatos, te deixo passar.

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