Segredo

Tenho contado, cada palavra dita, meu ditado, palavras perdidas no diário, na nuvem, no teto do quarto, quando imagino tenho você comigo e me bastaria, meia vida se fosse assim que viveria.
Sem ver, te conto os quatro cantos do meu quarto, meu dia e os detalhes entalhados, é a metade direita que soma, que aguarda, guardando na pequena bagagem, na mala traz a tona a vontade, sem tempo, sem jeito, já não sei como não ter você em todos pensamentos, como posso controlar se não tento? Como posso ter menos de você em meu peito?
Precipitado, como sempre do lado esquerdo soa o alerta, os ponteiros que param, parece que é mesmo o medo de perder, do passado, de respirar sem saber se há vida, antecipado, se há via para percorrer ao teu lado. Pudesse ser esse o último dia do segredo, puderá ser convicta, a clareza da certeza absoluta, mas é hora atrás de minuto, pressa, o absurdo, conto até 10 a cada segundo.
Desacelero, mantenho o silêncio, deixo ser teu também o segredo, espero me contar, quanto é a soma do que sente, os teus anseios, de que precisaria, que meia vida bastaria, se eu estaria, se haveria nós, se um dia haveria, amor.

Inerte sentimento

Aquecido o canto do quarto.
As paredes viradas, os retratos.
A estante abraçava, acolhia o passado.
Vivia a contar a respiração, assim se guiava
E a história em voz baixa o contava:
Haja ferro em gaiolas e grades,
Portas, passagens, corações na garagem.
Haja dias fechados, estreitos, sem passos,
Todos os dias trancados no quarto.
O quinto de sanidade soprado ao ouvido,
Prelúdio do ditado, o sexto sentido.
Via, era visto,
Desvia, deixa o caminho,
Via-se vivo, seu inerte inimigo.
Desvia, delira, desvisto esvazia,
Guardou, ficou, tornou-se mobília,
Em um canto, junto ao sofá, os retratos.
A estante o abraça, acolhe seus passos,
Dois, três, segue o compasso,
Senta-se, sente-se, abandona o diário.
Os tempos se unem, o tempo, seu fardo.

Dívida

Esses olhos, olho, me perco, o quanto intenso pode ser o que vejo, nômade desejo, agindo pela busca da liberdade, não entendo e pouco importa o que se esconde atrás da porta. Logo o que vira, me encontra, a seguir as pistas, as rosas, a postos, aposto, sei que posso, me aconchego, um segundo de distância, só percebo agora, miopia, não te vejo como via, não parecia possível, mas lido, faço o que posso para entender o destino, lido, como me sinto, sem mistério, aos poucos me entrego, sei que percebe e é o que quero, não desvio, trago seu olhar comigo, acompanha, acampa em companhia, continua na minha, vem, me atrasa, faz falha a próxima linha de pensamento, do tempo, faz meu horizonte vertical, perde o jeito, eu chego, te digo nada, esses olhos, olho, me perco, começo do começo, de novo, voo, alcanço a velocidade, me passa, se atrasa, carrega contigo a chegada, aproximado, te encontro do outro lado, te encontro quando passo, fico parado, não há movimento, sem rota, roteiro, sou o mesmo, ainda perco o foco, esqueço o que não devo, sou muito óbvio, muito lógico, por isso te escrevo, lembre-se que te devo, de tudo que ficou, devo ficar.