Sonho

Percebi que parei de discernir a realidade quando os fatos se confundiam entre sonhos dormindo e acordado. Da frutífera imaginação veio o trato selado entre minha óbvia intenção de te amar e o racional inanimado, mas ainda assim faltava algo a pulsionar a veia que nutria a única sinapse ativa, a única guia gritando a desesperar-se, a perder a paciência, a entregar-te.
Em total silêncio me via no espelho acima, o tempo corria e as fases do dia se confundiam no quarto escuro, pouco nítidas ouvia as vozes ao fundo, ofuscadas pelas vistas anestesiadas a forçar as pálpebras, deixando-me levar pela ilógica noção conjunta de vida, deixando-me levar pela lucidez do que via, deixando-me ir.

Sistema

Eis que há vida e dela surge a insaciável aversão ao medo, que em seu casulo desenvolve-se sereno. Em parte tememos o que somos e a outra desconhecemos, logo o amor, em seu indiscutível domínio, nos tira a consciência e nos deixa o vício. Enquanto isso as paisagens tornam coloridos os borrões do tempo, os pássaros voam sobre nossas cabeças, certeiros, e ficamos aqui a desaconselhar-nos do único indício, o sinal conhecido da angústia, da vida que curta nos deixa brancos, em cinzas, tornando o amor uma fúnebre melodia, até não se escutar os pensamentos, entorpecidos, ocos, indignos, partidos na metade e a parte descansa o ócio e os ossos a desatar.

Lembrança

Esperava ser lembrança, enquanto guardava o que podia carregar. Sedenta na esperança de ser revivida, mesmo diante do atraso intolerado, da subconsciente noção que passava junto ao tempo, as nuvens, o vento, passava ao seu redor e cedia ao esquecimento.
É assim que se passam os momentos, esperando que haja espaço, que seja relevante, que desperte um gatinho, seja revivido, a memória em seu estado primitivo, esperando que haja abrigo para ser lembrança.

Contrapasso

Em sua breve explicação dos porques de não sentir, sentia, era mesmo uma doença social, uma virtude esquecida. Demasiado, a representatividade do afeto em sua vida o tornava mais pele do que músculo, invertebrado. Por longos anos se fez indiferente, reprimiu-se em metade do que acreditava coerente, dava-se como louco, um cientista apaixonado, entretanto era oco, um poeta de ditados.
Até que houve o fato:
Um estalo. Em uma tarde em seu retiro apareceu algo fora do ordinário. Uma reação química, biológica, a energia transferida em uma sinapse neurológica. Da esquerda a direita, até um espaço consciente, sintonizados os neurônios transferiam em sua mente, a nova presença vertia do imaginário, um conjunto de sentidos antes nunca alcançado.
Foi suficiente.
As linhas que conduziam os pensamentos pela sua mente estavam alinhadas a uma expectativa cega, algo antigo, mas novo o suficiente para fazer o estômago girar três vezes em sentido horário.
Era febre, sentia o frio por fora, todavia por dentro queimava em sentimentos, como bruxaria, o coração cada vez mais pesava enquanto sentia ao seu lado o toque empoeirado do destino, transformando-o, partindo, deixando o corpo, o possuindo. Definia-se assim o que sentia, nomeado de amor, ecoando agonia.
Em um duelo intrapessoal discutia, dentro de ser o que de fato seria. Quem derá não deu instrução, sua resposta era uma constante dúvida, chovia lá fora, o som o conduzia no seu particular conflito, era o mito contra a realidade, a corrupção de sua mais genuína verdade, inaceitável, o amor em seus curtos passos o alcançava, lentamente concebia, moldava, tornava lembrança, o dissecava. Negava sua dada imperfeição ao espelho, tornou-se raíz migrando o desejo, encubiu-se, florescia, semeava amor e temia, era futuro demais a imaginar, sonhos demais a materializar, a vida como síntese de querer, predizia, tornava-se chão e caia.