Contrapasso

Em sua breve explicação dos porques de não sentir, sentia, era mesmo uma doença social, uma virtude esquecida. Demasiado, a representatividade do afeto em sua vida o tornava mais pele do que músculo, invertebrado. Por longos anos se fez indiferente, reprimiu-se em metade do que acreditava coerente, dava-se como louco, um cientista apaixonado, entretanto era oco, um poeta de ditados.
Até que houve o fato:
Um estalo. Em uma tarde em seu retiro apareceu algo fora do ordinário. Uma reação química, biológica, a energia transferida em uma sinapse neurológica. Da esquerda a direita, até um espaço consciente, sintonizados os neurônios transferiam em sua mente, a nova presença vertia do imaginário, um conjunto de sentidos antes nunca alcançado.
Foi suficiente.
As linhas que conduziam os pensamentos pela sua mente estavam alinhadas a uma expectativa cega, algo antigo, mas novo o suficiente para fazer o estômago girar três vezes em sentido horário.
Era febre, sentia o frio por fora, todavia por dentro queimava em sentimentos, como bruxaria, o coração cada vez mais pesava enquanto sentia ao seu lado o toque empoeirado do destino, transformando-o, partindo, deixando o corpo, o possuindo. Definia-se assim o que sentia, nomeado de amor, ecoando agonia.
Em um duelo intrapessoal discutia, dentro de ser o que de fato seria. Quem derá não deu instrução, sua resposta era uma constante dúvida, chovia lá fora, o som o conduzia no seu particular conflito, era o mito contra a realidade, a corrupção de sua mais genuína verdade, inaceitável, o amor em seus curtos passos o alcançava, lentamente concebia, moldava, tornava lembrança, o dissecava. Negava sua dada imperfeição ao espelho, tornou-se raíz migrando o desejo, encubiu-se, florescia, semeava amor e temia, era futuro demais a imaginar, sonhos demais a materializar, a vida como síntese de querer, predizia, tornava-se chão e caia.

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