Evaporar

Enquanto desviava das balas que atiravam, para ele era alvo fácil, mirou-se de amor, recebeu o contrário, mas era tanta a expectativa, faltava de si o que sentia e estava cada vez mais a esvaziar-se do que possuía. Nele buscava abrigo, cedia ao destino, fardava o escudo, aceitava a guerra, cedeu o espírito, a alma, e era, em sua limitada versão do verbo, amar.
Enquanto dissoava cada palavra vazia, também tornava os gestos dele em armadilhas, pagou para ver o se tornar-se seu, todavia o céu anoitecido, junto a seu coração amolecido, cediam a luz do dia, claras eram as intenções, só não correspondidas, contudo via-se em uma realidade alternativa, considerava um desafio, mas era apenas o vício de ceder, de ser o alvo, de sofrer para sentir-se amado.
Em quantos pedaços ficou, não sabia, era a parte vencida pela agonia, perdeu, perdera, perdurou, o que sobrou dele é o que ficou, doou-se em seu último abraço, respirou do paraíso o ar gasto e evaporou.

Quatro quartos

A pressa que me segue não deixa rastro, é como se a cada passo houvesse três a serem dados e não acompanho a rotação do destino ao redor de todos os astros que passam rasteiros ao meu lado, a me deixar.
Fumo o futuro, fumaça, o vento correndo de graça e nos cobrando atenção. Os fios brancos presos no asfalto, as linhas imaginárias que nos separam, os sinais que não dizem nada, a se partir.
A mil ano luz atrasado, as luzes refletem o passado, no estrado da cama vibra o som das batidas do coração acelerado, o fim da noite é sempre menos denso quando sinto o acochoado som da pressa em desespero, esperando a porta, observando as horas sem passar.
No geral resta tanto do pouco que sobra, me torno a ideia de vida lá fora, os verbos se perdem no vento, verdades são meros desejos, não sou além da consequência do tempo, a aguardar.
Do caos um quarto é refúgio, a razão de reconhecer o escuro, andando de luzes apagadas nas várias versões do meu ego, o seguro da imobilidade, a pressa coberta de calma, a se iludir.