Ceder

Não acredito, é história, toda essa bagagem e você não se importa de ir embora ? Sabe, tenho espaço, em um ou outro canto penduramos alguns quadros, mas não faltará vazio a preencher, não faltará vontade.
Verdade, é o seu medo, de encontrar o que deseja em meu beijo, de abraçar o abismo, cair sem direção, sem sentido, não atar sua mão.
As árvores ainda passam despercebido, perdi a conta de quantas vimos no caminho, viajamos metros ao quadrado parados em um cômodo revirado, visitamos o desvio do senso, o triângulo circulando nossos passos, 3 pontas de nós.
Desligado, apagou­ se para impedir incêndio, é frio, é queda, somos tudo que prevemos, antes de virar o ponteiro, meia noite, meio dia, enquanto dividem o tempo, conto no espelho, vejo no reflexo o contrário do desejo, não sei se sou abrigo ou refúgio, não acredito, é história, com tanta bagagem, de verdade, deseja ir embora?

Te peço, impeço a passagem pela porta, te chamo, retorna, não precisa ir embora. Perde a rota, esquece o tempo, sequestro o seu ímpeto segredo, me recompensa, me aqueça, deixa incendiar.

A primeira vista

Sim, eu me lembro, era como fechar os olhos no deserto e sentir a areia tornar em oceano, uma sensação de alívio e contento, a total satisfação dos meus desejos.

Foi no máximo um movimento do relógio, foi o suficiente. Era como sentir todos ao meu redor ao mesmo tempo, um surto empático, um flamejo, como roubar todo o amor do ar, todo em mim, todo para mim, a presença de uma divindade, o arrepio da sanidade.

Foi um sopro e as cartas ainda estavam ali, paradas, esperando um toque para desabar, ordenadas como o destino, como se eu soubesse que esse era meu objetivo, o sacrifício da premonição, a pena que valia a pena, toda energia do universo no meu peito.

Se foi amor? Foi um olhar, um segundo de aceitação do absurdo e passou, como qualquer sensação, ficou apenas a falta, a necessidade de preenchimento, que outrora voltaria a ser, voltaria a minha consciência como reflexo do hábito de não estar preparado, inconstante.

Contra-tempo

Você, meu contratempo, não é surpresa, são as expectativas, toda falácia e ainda falta palavras, falta coragem para reverter em fala o que vaza aqui, vazão de vontades, me esconde verdades, restrições.

Espera, ainda não parti, inteiro com duas metades, apresento o denominador comum, o espaço conhecido em lugar nenhum, o mesmo vácuo que determinou-se amor, o mesmo vácuo que nos formou.

Pressinta, é gasoso, está na mira, invisível a olho nu, me despiu de mim, me trouxe a nado, nada a me encontrar, atrai, não me deixa ir embora, estica um pouco, cede ao torno, deixa voltar.

Vírgula, pausa na respiração, percebe, estamos presos ao não, mas desce, solta o corrimão, fica, me leva, desconstrói a metade, dois terços em ti, dois terços aqui, esquece a sobra, eu e você,  adivinha,  contra o tempo.

Combustão

Não é força, é jeito, vontade e aptidão. Inabilidade é ócio. O amor pode te esperar a porta, mas a porta tem trancas demais. Análogo o modo como nos vemos nos olhos do outro, como espelhos das nossas almas. Somos sim, seres criativos, criamos todos os reveses da razão e revezamos em escolhas, certas ou erradas, forçando a barra. Na aptidão encontramos o tato para o inoportuno, isso quando o ócio em tentar o novo não torna de novo. A chave para encontrar algum sentido é não esperar sentir e apenas deixar que se sinta, fluir, destrancar do estômago a agorafobia constante, dividir, ser amante, ser amado, ser amor e sentir o ser, sentir-se.

Espirais (1)

Bate a porta, 5 passos dados, ainda não acostumada com a ideia de ter deixado, era como um filme de baixo orçamento, todos aqueles momentos em seu pensamento, não conseguia evitar. Se pudesse detalhar como se sentia, diria que não há caminho, mesmo tendo a vista destino, é como acompanhou o último sorriso, a miragem do abismo que escalará, a última memória lívida de uma vida que pouco foi vivida e ficou lá, na batida da porta, 5 passos atrás.
Chovia, como em todas manhãs desses dias, o tempo insistente em manter a harmonia, torna-se o espelho da agonia, bastava olhar para as nuves carregadas, como a vertigem, uma aura, toda angustia ali acumulada e caia sobre os ombros, pesadas batiam, respigavam desordenadas, as gotas juntas as lágrimas, estava sozinha, se acompanhava, fazia companhia a sua alma, mas não voltaria, mantinha o carma, não era sua culpa.
Ainda não chegou a lugar algum, mas a algum lugar chegaria, andava em direção contrária ao rumo de casa, já não era lar, não depois que partiu e disse que nunca retornaria, não depois de todas palavras soltas na calçada, mas onde poderia ir? Não lhe sobraram muitas migalhas, caminhos para seguir, enjaulada, era hora de ceder do orgulho, mergulhar fundo, deixar-se afogar.
Guiada por sua maldição, mudou sua direção, caminhava pela ruína, era tudo que conhecia e de onde nutria os versos de sua poesia, como poderia evitar? Como conteria a besta prestes a se libertar? Uma fração de mudança no tempo, fechou os olhos para o contento, percebeu estar em queda livre, dentro do próprio sofrimento, sim, era confortável, sentir o calor proveniente do seu abraço, era isso e nada mais
Na ponta do iceberg, apenas um cubo de gelo no oceano gelado, duraria os segundos necessários para liquificar.
Tic, tac, ouvia os segundos embalados pela rotina e pelo desespero, despreparado, o relógio traz o tempo ao seu lado, passa devagar como as batidas do coração, desacelerado, perdeu a fala, o compasso, inerte definia seu estado e como tem passado, todo passado revivido em seu quarto, pudera se livrar dos quadros, dos porta retratos, das gavetas cheias de folhas e retalhos, fragmentos de memórias embutidos nos desenhos das paredes, nos descascados.
Fresca a lembrança em seu subconsciente, o passado era sua fraqueza, a única forma de lembrar dos momentos acelerados, dos mesmos sorrisos que lembrara ao sair do carro, 5 segundos e todo o passado volta a atormentá-la. Ah! Se apenas tivesse passado, mas passa a todo tempo, presente desfigurado, sem sentido ou noção do tempo, presa no delírio, ele preso em teu peito, podia sentir.

Espirais (2)

Do lado de fora 5 dias se passaram, como estariam lado a lado, como sentia saudades do cheiro de orvalho, perguntava-se. Foi a decisão mais difícil que já havia tomado, engasgada gole a gole, descia a garganta forçado, mas estava justificado, pelo menos em sua realidade idealista teria mesmo de ter deixado, era disso que se convenceu nos monólogos, no diário, nos novos poemas, nos entalhos, nas gravuras em seu quarto, estava certa e a certeza era o que continha o desejo. Mas por vezes vinha no ar, o perfume, a sensação daquele olhar, que virava do avesso qualquer dos seus preceitos de amor. Como era amor, como era amado. Doia admitir que cada vibração do seu corpo continha-se da vontade, eram tantas vontades, resumidas na de esquecer a verdade, de dobrar o ponteiro, de ver por inteiro, ser levada pelo intento.
Tentara muitas versões da verdade, fez-se desculpa, razão, loucura. Esteve no mar, no lar, nas alturas. Viveu cada segundo da cotidiana aventura. Até encontrou um ou outro em segredo, mas se não era ele não tinha sentido, nada sentira nas últimas tentativas, era corpo e carne, fluía lentamente a dilatação da pupila, nenhum movimento surtia, nenhum beijo seria como deveria ser.
Alternava entre as alternativas, alguma hora seria sucedida pelo sentimento de vitória, não era possível que nada funcionaria, que nada tiraria a lembrança, estava tão perto da razão, mas tão longe da intenção de deixar.
O tempo passou direto, carregava a bagagem de lado, os olhos trêmulos, passos pouco controlados, o tiro incerto. Encontrou-se dormindo acordada, não sabia separar a realidade do que tanto havia desejado, era aquele momento, que temeu em todos seus pensamentos, ele estava lá. No contratempo da razão, perdeu a noção do que deveria dizer, e nada foi dito, passou invisível, como a brisa soou em seu ouvido, passageira e de lá fugiu.

Espirais (3)

5 anos e meio, já era tempo suficiente para esquecer, perdoar-se por deixar, já era tempo de ter deixado passar, mas havia uma força, um descontento , algo que agia desintencionadamente por dentro, um boicote a suas convicções, deixara de ser desejo em algum momento e se tornou alguma espécie de lamento, um bloqueio.
Rezava todas as noites, cada dia aumentava o tom, aumentava a tensão na pulsação dos seus músculos, involuntários movimentos, nunca mais relaxou, perdeu-se na busca de terceiras soluções, sabia que não adiantava se doar, afinal se entregar era ceder ao que acostumou ignorar, tirar o curativo, ter de novo o sorriso, mas também o premeditado reclínio a queda.
Nesse ponto conhecia-se em detalhado plano aberto, ficou vulnerável, previsível, previa-se tudo que aconteceria por vício.
Era o que sabia de si e se tornou o que menos esperava, mas agora na lúdica versão da vida restava seguir, era a veracidade que surtia efeito, o que lhe motivava a respirar mais um dia, por mais tempo, implorava, não havia mais nada, tornou-se relevante, importante, fazia-se necessária por fora e por dentro já não importava mais.

Espirais (4)

Anestesiada, em forma de suspiro deixava-se levar, não sobraram palavras em seu dicionário, pobre vocabulário, estava inerte a nadar, por vezes saltará, sentia-se livre em queda, mas depressa acaba, prende-se ao chão. Não era certeza a quem deveria culpar, deixou o se tornar-se a versão dos fatos, fantasia, deixou-se levar pela única fuga que encontrará e agora não conhecia os cantos do inaudível coração que carrega e leva como seu fardo, leva de lado e a frente não reside o passado, como seguir o que não se vê, como livrar-se do se?
Na cotidiana mesmisse das paisagens tornando-se borrões na janela, previa como seria todo o dia, nunca diferia, era idêntica, apenas aparências, de tom em tom de verde, cada árvore ali presente passava, os faróis, os carros, tanta gente, poucos sorrisos, passos e passos, sempre a frente, sem sal, por diversas vezes incolor e inodoro, passavam todos inconscientes, insensatos, os cabelos brancos crescendo em seus traços, e nada fazem, não agem, continuam a andar.
Por um lado se identificava, mesmo sabendo estar errada era onde se encaixava, no subconsciente da maioria que por ela passava, todos aqueles pensantes seres subindo a eterna escada da negação, conheciam-se, coexistiam na inércia de uma vida figurada, eram o que podiam ser.
O último boa noite marca o fim das horas contadas, leva-se a acreditar que o destino encarregou-se de mais uma charada revelada, o caminho traçado, entalhado, nada novo dizia-se do passado, tudo que ficou destinado a ser esquecido, menos uma hora, menos uma paisagem borrada em seu consciente, a manhã que segue a noite, é tarde, se repete, em tese é o alicerce, tudo que se sabe, tudo que significa essa viagem, velejar.