Ressentir

Tua voz tem esse efeito, me faz desconhecer tudo que um dia foi monótono, é assim que desboto, de longe traço a silhueta, imaginando o seu vibrar no estrado da cama, o peito acelerado, te sinto de longe respirar fundo, te repito por horas, pronuncio seu nome em voz alta, assim te sinto mais perto, e conto o tempo, as pausas, passos, pontos, portas, notas, conto inconsciente, vitimado, escurece a vista, desgastado, volto sem jeito a te contar meu dia, 93 km agora, asfalto e o vento lá fora, te trazendo para mim.

Bidimensional

Chegou a rotineira oitiva, quando o espelho encara novamente a vítima a se decompor. Do ponto de vista contrário era tudo raso, difícil de entender, isso porque de ambos lados o que restava era refletir.

Durante o dia se acompanhavam, consideraram-se livres, mas se questionavam, onde era real, onde era projetado?

Impulsivo, imperativo, rotacionavam pelo ímpeto de reconhecer-se vivos. Porém a noção de si só existia compartilhada, quando um do outro refletia e em um se materializava.

Escamas – Lado B

Eu não era o suficiente, ouvia de longe o eco do seu subconsciente distraído a me avisar. Preferia a distância, por isso mesmo na falta não cedia ao contato. Mas eu estava fascinado, de um jeito que sei que era esperado, me coloquei como mais uma carta embaralhada no seu baralho. De forma incerta, esperava uma resposta do silêncio. Foram algumas horas e cessou, percebi de longe o ponteiro, era a noção que eu tinha de tempo, recolhi as peças que restaram, mas deixei a louça lá, uma semana me lembrando que me prendi para te libertar.

Escamas – Lado A

Agarrado ao eco do que restou da última inspiração, expirou. Era mais uma peça para a pilha, perdeu as contas de quantas vezes havia se doado, mesmo fadado a culminar novamente no fim ensaiado.
Era contundente a liberdade que sentia na perda, dessa forma a solidão o libertava, não procurava sentido, procurava sentir e em cada síntese que retornava de suas reflexões acabava na certeza, era claro, não sentia que merecia se sentir amado.
Enquanto se apoiava no quebra cabeça desmontado, ansiava pelo improvável e esperava que algo o completasse, por isso aceitava se compor de pedaços, do que restou de outros, do passado, das peças que o deixaram, e as que restavam não formavam a imagem em que refletia.

Síntese de nós

Por todas as vezes que esperamos o toque,
As vezes que trocamos de pele,
Criando lembranças no escuro,
Convenções de amores absurdos,
Rolando as pedras no abismo,
Somando horas úteis aos sonhos,
Perdemos aos poucos,
Moldando a ferro nossa imagem no outro,
Calamos o som do caos,
Falamos por espaços,
Mas perdemos a voz no todo,
E quando estamos só?
Em toda a insistência, fosse de quem foi,
Sorrimos a perda, nos armamos de novo,
E voltamos a esperar.

Partícula “se”

E se..?

expresso atemporal

Do se tirou vantagem, corroeu-se,
Confundiu-se forte e era em sua mente,
Na ilusão da solidão, contornou-se,
A pesar o amor que estava a sua frente.
Empoeirado na estante,
de enfeite,
Fez-se peso de papel,
de lembretes.
O tanto tornou-se o tempo,
E o tempo o acompanhava,
Mas não passava ileso,
Nada mais nele passava.
Até que acizentou-se,
Alienou-se de vida,
Endureceu-se por fora,
Emoldurou-se na saída.
Seguro em seu casulo,
Acostumado pelo medo,
Adormecido pela angústia,
Inerte como o vento.
Nos ses prendeu-se dentro,
Vivia pela dúvida,
Se seria amor ou se seria cura,
Se seria eu, você ou tua,
Se seria nós, qual seria a hora?
Se seria nosso, seria o agora?
Se seria o se, por que perder o tempo?
E se seria, se foi ou se partia. E se?

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Evaporar

Enquanto desviava das balas que atiravam, para ele era alvo fácil, mirou-se de amor, recebeu o contrário, mas era tanta a expectativa, faltava de si o que sentia e estava cada vez mais a esvaziar-se do que possuía. Nele buscava abrigo, cedia ao destino, fardava o escudo, aceitava a guerra, cedeu o espírito, a alma, e era, em sua limitada versão do verbo, amar.
Enquanto dissoava cada palavra vazia, também tornava os gestos dele em armadilhas, pagou para ver o se tornar-se seu, todavia o céu anoitecido, junto a seu coração amolecido, cediam a luz do dia, claras eram as intenções, só não correspondidas, contudo via-se em uma realidade alternativa, considerava um desafio, mas era apenas o vício de ceder, de ser o alvo, de sofrer para sentir-se amado.
Em quantos pedaços ficou, não sabia, era a parte vencida pela agonia, perdeu, perdera, perdurou, o que sobrou dele é o que ficou, doou-se em seu último abraço, respirou do paraíso o ar gasto e evaporou.

A primeira vista

Sim, eu me lembro, era como fechar os olhos no deserto e sentir a areia tornar em oceano, uma sensação de alívio e contento, a total satisfação dos meus desejos.

Foi no máximo um movimento do relógio, foi o suficiente. Era como sentir todos ao meu redor ao mesmo tempo, um surto empático, um flamejo, como roubar todo o amor do ar, todo em mim, todo para mim, a presença de uma divindade, o arrepio da sanidade.

Foi um sopro e as cartas ainda estavam ali, paradas, esperando um toque para desabar, ordenadas como o destino, como se eu soubesse que esse era meu objetivo, o sacrifício da premonição, a pena que valia a pena, toda energia do universo no meu peito.

Se foi amor? Foi um olhar, um segundo de aceitação do absurdo e passou, como qualquer sensação, ficou apenas a falta, a necessidade de preenchimento, que outrora voltaria a ser, voltaria a minha consciência como reflexo do hábito de não estar preparado, inconstante.