Incomodo

2 mil quilômetros de distância na mesma cama, não te enxergo no escuro, escute, estou cansado de ouvir, todos os dias a mesma confusão,  todos os caminhos na contramão.

Veja, esse sou eu, não sou tão inconstante, mesma carne, osso, alma e razão. Não nos cansamos da exatidão?  Das vozes em nossa cabeça nos convencendo a mudar a cor do quarto, da goteira regular pingando ao nosso lado, a mesma silhueta do amor imaginário, não te sinto, 2 mil kilometros afastados.

Me acostumei com o azul amarelado, achei que para você também estivesse confortável, pelo visto todo o tempo estou errado, pelo visto não tenho usado o olfato, afinal não sinto o seu cheiro amargo, será que ainda está aqui? Será que circula em mim?

Sinta o movimento coordenado dos nossos corações pelo estrado, melodia a minha cegueira, o único rumo que me guia, me segue pelo som, me acorde inaudível, acorde comigo, me segue.

Caos

Inerte, como o verso de uma obra de arte a buscar o seu valor, nunca sentiu-se livre, e enquanto se apaixonava pelo tempo estagnou-se no caos.
Contradisse, transbordou metade das lembranças, guardou-se e criou o vácuo, orbitou em seu próprio espaço até colidir.
Metades, terços, quartos, pôs-se a prova, andou descalço, mirou no risco, acertou o marasmo, era solúvel, mas intragável, o gosto conhecido, engasgado, não era feliz ou triste, pelo contrário, era mais do que o estado de ser.
Foi quando percebeu o rarefeito toque do esquecimento, viu-se preso entre a companhia do caos e do medo, isolou-se, conheceu-se, transformou-se e do se fez companhia, velejou.

Mania

Se me passa um segundo, o sinto,
um instinto engatilhado, um vestígio.

Certo como um erro, perco a mão na dosagem,
do veneno que corrói e constrói a vontade.

Erro no uso do tanto e do quanto,
Deixo a deriva, a crescer o encanto.

Em resposta as memórias do abraço porvir,
Transformo em história o que posso sentir.

Moldo no vento as noções de querer,
Sem perceber quanto eu deixo de ser.

Assim me perco, me deixo aos poucos,
Me preencho em vazios, me torno o outro.

Partícula “se”

Do se tirou vantagem, corroeu-se,
Confundiu-se forte e era em sua mente,
Na ilusão da solidão, contornou-se,
A pesar o amor que estava a sua frente.


Empoeirado na estante,
de enfeite,
Fez-se peso de papel,
de lembretes.


O tanto tornou-se o tempo,
E o tempo o acompanhava,
Mas não passava ileso,
Nada mais nele passava.


Até que acizentou-se,
Alienou-se de vida,
Endureceu-se por fora,
Emoldurou-se na saída.


Seguro em seu casulo,
Acostumado pelo medo,
Adormecido pela angústia,
Inerte como o vento.


Nos ses prendeu-se dentro,
Vivia pela dúvida,
Se seria amor ou se seria cura,
Se seria eu, você ou tua,
Se seria nós, qual seria a hora?
Se seria nosso, seria o agora?
Se seria o se, por que perder o tempo?
E se seria, se foi ou se partia. E se?

Anfêmero Lapso Emotivo

Coincide a passagem, a fração do segundo
Em que vejo você e descubro o embrulho,
Me calço de afeto, aperto a gravata,
Cedo ao sorriso, a necessidade e a falta.

Ecoo racional, reversível, forçado,
O ponteiro repete o palpite apressado.
Um segundo enrola nossos nós desatados,
E por dentro me perco procurando atalhos.

Palavras e passos nos prendem no tempo,
O passado insiste em recriar os meus erros,
Logo vem o atraso seguido da pressa,
O desespero da esperança pedindo uma trégua.

Me perco no tráfego de pessoas que passa,
E passa o tempo, o presente, a estrada,
Te procuro, escondido, cifrado em segredo,
O pensamento vestido do vestígio que vejo.

Coincide escoar a ausência de tento,
Enquanto engarrafo as memórias de agora,
Guardo a fração do segundo passado,
Descalço o afeto, te deixo a porta.

Quatro quartos

A pressa que me segue não deixa rastro, é como se a cada passo houvesse três a serem dados e não acompanho a rotação do destino ao redor de todos os astros que passam rasteiros ao meu lado, a me deixar.
Fumo o futuro, fumaça, o vento correndo de graça e nos cobrando atenção. Os fios brancos presos no asfalto, as linhas imaginárias que nos separam, os sinais que não dizem nada, a se partir.
A mil ano luz atrasado, as luzes refletem o passado, no estrado da cama vibra o som das batidas do coração acelerado, o fim da noite é sempre menos denso quando sinto o acochoado som da pressa em desespero, esperando a porta, observando as horas sem passar.
No geral resta tanto do pouco que sobra, me torno a ideia de vida lá fora, os verbos se perdem no vento, verdades são meros desejos, não sou além da consequência do tempo, a aguardar.
Do caos um quarto é refúgio, a razão de reconhecer o escuro, andando de luzes apagadas nas várias versões do meu ego, o seguro da imobilidade, a pressa coberta de calma, a se iludir.

Desarmado

Em cinzas, recolhido, posto à prova, escondido. O amor o deixou de lado quando resolveu segui-lo. Deixou-se desarmado, a alma à vista, vulnerável, consequente a sua frenética obsessão de bater acelerado deixava-o se mostrar vivo. Poderia ter sido, mas a vertente do destino em seu descuidado acidente entregou-se ao som de alerta, partiu-se, afogou-se em seu vício. Sem semáforo, desabou a última peça da armadura que o guiava, certo ou errado, o falso julgamento do passado e as lembranças a se apagar.

Jangada

Providencio a jangada, baixo a guarda e te deixo me navegar rio abaixo, o fato é que falta tato para alcançar o seu estado sólido, e solidificado trago ao meu pulmão o que o coração não carrega, te respiro e torno-o ar espesso, difícil de tragar o respingo do que me sobra do seu amor. A brecha no contrato é o retrato do meu ego, deslanchando a avalanche que me cobre, tempesteia, me torna a areia que cobre o oceano a te procurar, é o encontro do oposto, a contra proposta, o inferno as nossas costas a alcançar o que era, e erra, me deixa errar, me deixa levar seu coração de pedra a beira do abismo, o jogo, te sinto, o som oco, ecoando nas paredes da costela, incendeia, veleja as veias da jangada de madeira viva e o amor que peço, a remar.

Sonho

Percebi que parei de discernir a realidade quando os fatos se confundiam entre sonhos dormindo e acordado. Da frutífera imaginação veio o trato selado entre minha óbvia intenção de te amar e o racional inanimado, mas ainda assim faltava algo a pulsionar a veia que nutria a única sinapse ativa, a única guia gritando a desesperar-se, a perder a paciência, a entregar-te.
Em total silêncio me via no espelho acima, o tempo corria e as fases do dia se confundiam no quarto escuro, pouco nítidas ouvia as vozes ao fundo, ofuscadas pelas vistas anestesiadas a forçar as pálpebras, deixando-me levar pela ilógica noção conjunta de vida, deixando-me levar pela lucidez do que via, deixando-me ir.

Sistema

Eis que há vida e dela surge a insaciável aversão ao medo, que em seu casulo desenvolve-se sereno. Em parte tememos o que somos e a outra desconhecemos, logo o amor, em seu indiscutível domínio, nos tira a consciência e nos deixa o vício. Enquanto isso as paisagens tornam coloridos os borrões do tempo, os pássaros voam sobre nossas cabeças, certeiros, e ficamos aqui a desaconselhar-nos do único indício, o sinal conhecido da angústia, da vida que curta nos deixa brancos, em cinzas, tornando o amor uma fúnebre melodia, até não se escutar os pensamentos, entorpecidos, ocos, indignos, partidos na metade e a parte descansa o ócio e os ossos a desatar.