Mania

Se me passa um segundo, o sinto,
um instinto engatilhado, um vestígio.

Certo como um erro, perco a mão na dosagem,
do veneno que corrói e constrói a vontade.

Erro no uso do tanto e do quanto,
Deixo a deriva, a crescer o encanto.

Em resposta as memórias do abraço porvir,
Transformo em história o que posso sentir.

Moldo no vento as noções de querer,
Sem perceber quanto eu deixo de ser.

Assim me perco, me deixo aos poucos,
Me preencho em vazios, me torno o outro.

Quatro quartos

A pressa que me segue não deixa rastro, é como se a cada passo houvesse três a serem dados e não acompanho a rotação do destino ao redor de todos os astros que passam rasteiros ao meu lado, a me deixar.
Fumo o futuro, fumaça, o vento correndo de graça e nos cobrando atenção. Os fios brancos presos no asfalto, as linhas imaginárias que nos separam, os sinais que não dizem nada, a se partir.
A mil ano luz atrasado, as luzes refletem o passado, no estrado da cama vibra o som das batidas do coração acelerado, o fim da noite é sempre menos denso quando sinto o acochoado som da pressa em desespero, esperando a porta, observando as horas sem passar.
No geral resta tanto do pouco que sobra, me torno a ideia de vida lá fora, os verbos se perdem no vento, verdades são meros desejos, não sou além da consequência do tempo, a aguardar.
Do caos um quarto é refúgio, a razão de reconhecer o escuro, andando de luzes apagadas nas várias versões do meu ego, o seguro da imobilidade, a pressa coberta de calma, a se iludir.

Inerte sentimento

Aquecido o canto do quarto.
As paredes viradas, os retratos.
A estante abraçava, acolhia o passado.
Vivia a contar a respiração, assim se guiava
E a história em voz baixa o contava:
Haja ferro em gaiolas e grades,
Portas, passagens, corações na garagem.
Haja dias fechados, estreitos, sem passos,
Todos os dias trancados no quarto.
O quinto de sanidade soprado ao ouvido,
Prelúdio do ditado, o sexto sentido.
Via, era visto,
Desvia, deixa o caminho,
Via-se vivo, seu inerte inimigo.
Desvia, delira, desvisto esvazia,
Guardou, ficou, tornou-se mobília,
Em um canto, junto ao sofá, os retratos.
A estante o abraça, acolhe seus passos,
Dois, três, segue o compasso,
Senta-se, sente-se, abandona o diário.
Os tempos se unem, o tempo, seu fardo.

Dívida

Esses olhos, olho, me perco, o quanto intenso pode ser o que vejo, nômade desejo, agindo pela busca da liberdade, não entendo e pouco importa o que se esconde atrás da porta. Logo o que vira, me encontra, a seguir as pistas, as rosas, a postos, aposto, sei que posso, me aconchego, um segundo de distância, só percebo agora, miopia, não te vejo como via, não parecia possível, mas lido, faço o que posso para entender o destino, lido, como me sinto, sem mistério, aos poucos me entrego, sei que percebe e é o que quero, não desvio, trago seu olhar comigo, acompanha, acampa em companhia, continua na minha, vem, me atrasa, faz falha a próxima linha de pensamento, do tempo, faz meu horizonte vertical, perde o jeito, eu chego, te digo nada, esses olhos, olho, me perco, começo do começo, de novo, voo, alcanço a velocidade, me passa, se atrasa, carrega contigo a chegada, aproximado, te encontro do outro lado, te encontro quando passo, fico parado, não há movimento, sem rota, roteiro, sou o mesmo, ainda perco o foco, esqueço o que não devo, sou muito óbvio, muito lógico, por isso te escrevo, lembre-se que te devo, de tudo que ficou, devo ficar.

1/3 Terços

Um terço de mim está decidido, a deixar no passado, rebobinar o destino, a passar, ser seguido pela dúvida, viver a angústia de nunca saber, de ter desistido.
E dois terços insistem, em lembrar, de nunca ter esquecido, de trazer a parte, separado em partes, preencher cada espaço do incapaz coração emendado, ficar a mercê de um terço terceiro, que está convencido do mesmo. Desproporcional, como todo amor que conheço, pendendo ao erro de aceitar ser um terço.
É estranho o quanto eu sabia, mesmo antes de sermos inteiros, o quanto o nós imergia no meu conceito, proporcional a outro sentimento, onde estive, manjado, como posso ter tantos terços, de quantas partes preciso para ser inteiro? E quanto falta, quanto cabe em meu peito?
O terço no meu quarto esconde o que guardo, enraízado percebo, é tanto que cabe em um minúsculo espaço no peito. Basta uma sinapse e armazeno os seus traços, rabiscos invisíveis que criei, empoeirados. No que resta a dizer, o comando, a convencer-me de não mudar de plano, mas são terços de mais torcendo a estar ao seu lado, torcido, me vejo no abismo, e cismo a tentar voar, insisto, sinto, os terços transcrevo e deixo pra lá.