Quatro quartos

A pressa que me segue não deixa rastro, é como se a cada passo houvesse três a serem dados e não acompanho a rotação do destino ao redor de todos os astros que passam rasteiros ao meu lado, a me deixar.
Fumo o futuro, fumaça, o vento correndo de graça e nos cobrando atenção. Os fios brancos presos no asfalto, as linhas imaginárias que nos separam, os sinais que não dizem nada, a se partir.
A mil ano luz atrasado, as luzes refletem o passado, no estrado da cama vibra o som das batidas do coração acelerado, o fim da noite é sempre menos denso quando sinto o acochoado som da pressa em desespero, esperando a porta, observando as horas sem passar.
No geral resta tanto do pouco que sobra, me torno a ideia de vida lá fora, os verbos se perdem no vento, verdades são meros desejos, não sou além da consequência do tempo, a aguardar.
Do caos um quarto é refúgio, a razão de reconhecer o escuro, andando de luzes apagadas nas várias versões do meu ego, o seguro da imobilidade, a pressa coberta de calma, a se iludir.

Sonho

Percebi que parei de discernir a realidade quando os fatos se confundiam entre sonhos dormindo e acordado. Da frutífera imaginação veio o trato selado entre minha óbvia intenção de te amar e o racional inanimado, mas ainda assim faltava algo a pulsionar a veia que nutria a única sinapse ativa, a única guia gritando a desesperar-se, a perder a paciência, a entregar-te.
Em total silêncio me via no espelho acima, o tempo corria e as fases do dia se confundiam no quarto escuro, pouco nítidas ouvia as vozes ao fundo, ofuscadas pelas vistas anestesiadas a forçar as pálpebras, deixando-me levar pela ilógica noção conjunta de vida, deixando-me levar pela lucidez do que via, deixando-me ir.

Sistema

Eis que há vida e dela surge a insaciável aversão ao medo, que em seu casulo desenvolve-se sereno. Em parte tememos o que somos e a outra desconhecemos, logo o amor, em seu indiscutível domínio, nos tira a consciência e nos deixa o vício. Enquanto isso as paisagens tornam coloridos os borrões do tempo, os pássaros voam sobre nossas cabeças, certeiros, e ficamos aqui a desaconselhar-nos do único indício, o sinal conhecido da angústia, da vida que curta nos deixa brancos, em cinzas, tornando o amor uma fúnebre melodia, até não se escutar os pensamentos, entorpecidos, ocos, indignos, partidos na metade e a parte descansa o ócio e os ossos a desatar.

Sentido

Sem sentido, te sinto, sentindo, impossível. É assim quando estou contigo, totalmente sem sentido, o que passa me leva desatento, cego, só sinto seu cheiro. No tato, o abraço e o sabor teu que trago, gasoso, sou pouco entre tantos, entretanto escuto, te dou toda atenção do mundo. Eu corro, te risco, guardo o retrato, o rabisco, arrisco, tiro um sorriso e retorno ao passado, respiro fundo, em câmera lenta, me perco em memórias, destranco a gaveta.
Deixo ser nítido, visual e solícito, o que sinto espero que fique em lembrança e que a esperança se molde a saudade, sem precendente, pendurada a parede e assim vaza o que sou, entalhado te aguardo, parado, ensaiado, em queda livre o observando do alto, miro, impossível, sentindo, te sinto, sem sentido.

Contagem

Perco, retorna, contagem, as horas,
É assim que esqueço, deixo aos poucos.
Recolho o vazio do espaço oco,
Enxáguo o amor, despeso-o do ombro.
Caminho, a volta, contagem, as horas,
É elástico, o passo preso ao abraço,
Dobro o amor, passo e guardo
Um quarto fica, de novo aguardo,
até você partir.

Segredo

Tenho contado, cada palavra dita, meu ditado, palavras perdidas no diário, na nuvem, no teto do quarto, quando imagino tenho você comigo e me bastaria, meia vida se fosse assim que viveria.
Sem ver, te conto os quatro cantos do meu quarto, meu dia e os detalhes entalhados, é a metade direita que soma, que aguarda, guardando na pequena bagagem, na mala traz a tona a vontade, sem tempo, sem jeito, já não sei como não ter você em todos pensamentos, como posso controlar se não tento? Como posso ter menos de você em meu peito?
Precipitado, como sempre do lado esquerdo soa o alerta, os ponteiros que param, parece que é mesmo o medo de perder, do passado, de respirar sem saber se há vida, antecipado, se há via para percorrer ao teu lado. Pudesse ser esse o último dia do segredo, puderá ser convicta, a clareza da certeza absoluta, mas é hora atrás de minuto, pressa, o absurdo, conto até 10 a cada segundo.
Desacelero, mantenho o silêncio, deixo ser teu também o segredo, espero me contar, quanto é a soma do que sente, os teus anseios, de que precisaria, que meia vida bastaria, se eu estaria, se haveria nós, se um dia haveria, amor.

Inerte sentimento

Aquecido o canto do quarto.
As paredes viradas, os retratos.
A estante abraçava, acolhia o passado.
Vivia a contar a respiração, assim se guiava
E a história em voz baixa o contava:
Haja ferro em gaiolas e grades,
Portas, passagens, corações na garagem.
Haja dias fechados, estreitos, sem passos,
Todos os dias trancados no quarto.
O quinto de sanidade soprado ao ouvido,
Prelúdio do ditado, o sexto sentido.
Via, era visto,
Desvia, deixa o caminho,
Via-se vivo, seu inerte inimigo.
Desvia, delira, desvisto esvazia,
Guardou, ficou, tornou-se mobília,
Em um canto, junto ao sofá, os retratos.
A estante o abraça, acolhe seus passos,
Dois, três, segue o compasso,
Senta-se, sente-se, abandona o diário.
Os tempos se unem, o tempo, seu fardo.

Dívida

Esses olhos, olho, me perco, o quanto intenso pode ser o que vejo, nômade desejo, agindo pela busca da liberdade, não entendo e pouco importa o que se esconde atrás da porta. Logo o que vira, me encontra, a seguir as pistas, as rosas, a postos, aposto, sei que posso, me aconchego, um segundo de distância, só percebo agora, miopia, não te vejo como via, não parecia possível, mas lido, faço o que posso para entender o destino, lido, como me sinto, sem mistério, aos poucos me entrego, sei que percebe e é o que quero, não desvio, trago seu olhar comigo, acompanha, acampa em companhia, continua na minha, vem, me atrasa, faz falha a próxima linha de pensamento, do tempo, faz meu horizonte vertical, perde o jeito, eu chego, te digo nada, esses olhos, olho, me perco, começo do começo, de novo, voo, alcanço a velocidade, me passa, se atrasa, carrega contigo a chegada, aproximado, te encontro do outro lado, te encontro quando passo, fico parado, não há movimento, sem rota, roteiro, sou o mesmo, ainda perco o foco, esqueço o que não devo, sou muito óbvio, muito lógico, por isso te escrevo, lembre-se que te devo, de tudo que ficou, devo ficar.

1/3 Terços

Um terço de mim está decidido, a deixar no passado, rebobinar o destino, a passar, ser seguido pela dúvida, viver a angústia de nunca saber, de ter desistido.
E dois terços insistem, em lembrar, de nunca ter esquecido, de trazer a parte, separado em partes, preencher cada espaço do incapaz coração emendado, ficar a mercê de um terço terceiro, que está convencido do mesmo. Desproporcional, como todo amor que conheço, pendendo ao erro de aceitar ser um terço.
É estranho o quanto eu sabia, mesmo antes de sermos inteiros, o quanto o nós imergia no meu conceito, proporcional a outro sentimento, onde estive, manjado, como posso ter tantos terços, de quantas partes preciso para ser inteiro? E quanto falta, quanto cabe em meu peito?
O terço no meu quarto esconde o que guardo, enraízado percebo, é tanto que cabe em um minúsculo espaço no peito. Basta uma sinapse e armazeno os seus traços, rabiscos invisíveis que criei, empoeirados. No que resta a dizer, o comando, a convencer-me de não mudar de plano, mas são terços de mais torcendo a estar ao seu lado, torcido, me vejo no abismo, e cismo a tentar voar, insisto, sinto, os terços transcrevo e deixo pra lá.

Alomorfia

Apesar do coração ater-se a bater parado, em seu inerte estado em que parou e tem estado, em segredo, em uma parte distinta do lado esquerdo, bombeava-se algo desesperado, na busca de se encontrar, de ser encontrado. Em algum momento os pés deixaram de gravitacionar, de leve, por inteiro, flutuavam sobre o mar, era uma nova órbita no peito, deixou de sentir-se embaraçado, pelo abraço, pela mão ao lado ou pelo corpo respondendo aos gestos inesperados. Era, e tudo era inspirado, o ar rarefeito, raro, junto ao cheiro, que o movia, de fato.
Não foi muito tempo até que a perda da gravidade o soltou por dentro, foi a primeira vez que rompeu-se, inundou-se de tento, fez-se canoa a naufragar, aos poucos cedendo, se doando, sedento. Do ar fez morada, sem limite de chão, sem estradas, sem vento, a seguir todos caminhos, sem destino, ia, indistinto, até que em algum momento gravitacionar já não mais fazia sentido, perdera toda a razão que havia conhecido, fechou os olhos, deixou o mar, virou oceano, sempre a voar.
Por fim emancipou-se do tempo, passaram os dias como anos, fez-se presente, tornou-se detento, da liberdade, do amor, da cidade, vivera até viver não ser vívido, tornou-se o ar que respiro, tornou-se o eu que conheço, voou.