Inaudível

Não digo, reconheço, não sei dizer o que penso, e quando tento, não sei como te digo, não sei te fazer ficar.
Eis o lema do ditado, não chegar a onde foi mandado, tornar-se dizeres inaptos, apenas divagar.
Devagar como sinal de fumaça, fica na beira da praia, encontra o abismo e para, quase a despencar.
E se fosse sulficiente, colocaria em fogo, em braza ardente, até solidificar. E das cinzas ali deixadas, a sinapse fazendo-se clara, a nós a essência declara, a reflorestar.
Poderia,
Se houvesse o dom,
Andorinha,
Há se me desse chão.
Seria como ter olhos, ser guia, só assim eu andaria, desbravando as teorias, desabando a desaguar.
Assim mesmo é o amor, como a cortina arrastada ao vento, sempre dependendo, pendendo a direção do intento, sem pestanejar. E se me sopra voo ao seu caminho, volto, mesmo sozinho, fico a rodear. Rodeio a felicidade e faço dessa cidade um coração habitável, esperando pelo tratado, a unir o vento a cortina, e a eles acompanhar.

Antevisto

Um olhar foi suficiente, inaderente, não consegui soltar. Foram dois segundos e já tinha razões para ceder ao absurdo, atraído pelo escuro, inerte a tudo e um único intuito, te observar.
Naquele segundo desconsiderei todo o ódio do mundo, sabemos, o amor não é seguro, mas os sedentos olhos escuros moldam o abraço assimétrico, a menos de um metro, não formam-se tetos, sílabas, versos, apenas te observo.
Em cifras mastigo a ansiedade, não reconheço se é verdadeira sua companhia, todavia também te acompanho, sempre perdido, tentando, ao seu lado, olho disfarçado, o suficiente para que você note o desviado novo traçado que moldei de você.
No pouco que represento em seu dicionário, te cobro um sílabo ao contrário, me fervo a provar-te em teoria, como oportunidade, existiria, a te escolher, encolheria o coro de amigo, nos encaixaria, em tempo e melodia, e mesmo tardia, ressoa estática, ultrapassa, me deixa passar, sente, estala, ouve, esta lá, estou aqui e estará, a te esperar.

10:10

Pelo reflexo me entrego, sei que pode enxergar, é intencional, note a direção do meu olhar, aponta o retorno, o céu, o seu olho, tudo refletido, a te observar.
E quando o fecho, imagino o resto, uma vida passando entre um e outro ponto, vejo como seria, começa a viagem, vem, a verdade encubida de me derrubar do salto, e o atraso me cegando o encanto, trago, deixo o amor esfumaçar o pulmão, deixo ser o arco, entre a predileção e o fracasso, rumo ao centro, quase me perco em imaginação, preso no reflexo da sua íris, alugado, seu olhar pertencente ao meu dicionário, guardo, inspiração ao meu diário, as nuvens movem-se de lado, o sol nos vê calado, esquenta o coração resfriado, o leva a outro estado, entrega-se ao fardo, passou o ponto, desço no outro, se me acompanhar.

Ele ascender

Ainda tenho impressa a primeira vez que te vi na pressa, era uma fresta que me permitia enxergar na multidão, a distância de um passo, os detalhes encaixavam a memória em um quebra cabeça, estava formada a cadeia elétrica de um neurônio, viajando por dentro, criando em contento a sinergia de um sentimento que não encaixa ao tempo, foi por pouco e em um momento não era mais, naquele minuto não havia muito que convenceria a obsessiva agonia de que era momentâneo, mas por detrás dos panos algo acontecia, movia-se em sintonia ao começo das incidências, coincidiu.
No começo eu entendia, a vida em sua mesmice cotidiana nos trazia hora ou outra a encontrar a vista, era comum desviar-nos coordenados, cada um para o seu lado, o olhar focado na janela e nada existia, pelo menos era o que se passava, todos aqueles dias, nada ficava em harmonia, era o que era, sem nome dado, sem dardos lançados.
De lado enxergava seu novo penteado, a nova tatuagem, o novo trejeito envergonhado, um movimento brusco, o toque dos nossos músculos, a camisa repetida, sua feição sempre distinta, o olhar fixo a tela, a vida correndo do lado de fora da janela e o controle absoluto da respiração, sentia a energia quase elétrica, era absurda a sincronia que existia e ali cessava, fingia calma, mas esperava qualquer palavra dirigida, o menor semblante de vida, te esperava.
Não lembro de haver linguagem, mas tenho a lembrança da sua voz a dizer que também lembra, que está impressa em sua artéria, bombeando em cada veia, a dar caminho ao que colidia a realidade de toda expectativa circulando em teoria.
Minutos, horas, anos, a rotina nos trouxe ao novo, já não havia presença e deixou de ser visível, esquecemos a sentença que levava o vício a rodar. Agora é de vez em quando, dias sim, dias não, mais dias não, mas nos dias sim, até sua sombra me conforta, a distância, a espera pela porta, quando estou ao seu lado, pareço estar descalço, instável sentimento, não acompanho os passos, mas tento, e quando sem sapatos, te deixo passar.

Ceder

Não acredito, é história, toda essa bagagem e você não se importa de ir embora ? Sabe, tenho espaço, em um ou outro canto penduramos alguns quadros, mas não faltará vazio a preencher, não faltará vontade.
Verdade, é o seu medo, de encontrar o que deseja em meu beijo, de abraçar o abismo, cair sem direção, sem sentido, não atar sua mão.
As árvores ainda passam despercebido, perdi a conta de quantas vimos no caminho, viajamos metros ao quadrado parados em um cômodo revirado, visitamos o desvio do senso, o triângulo circulando nossos passos, 3 pontas de nós.
Desligado, apagou­ se para impedir incêndio, é frio, é queda, somos tudo que prevemos, antes de virar o ponteiro, meia noite, meio dia, enquanto dividem o tempo, conto no espelho, vejo no reflexo o contrário do desejo, não sei se sou abrigo ou refúgio, não acredito, é história, com tanta bagagem, de verdade, deseja ir embora?

Te peço, impeço a passagem pela porta, te chamo, retorna, não precisa ir embora. Perde a rota, esquece o tempo, sequestro o seu ímpeto segredo, me recompensa, me aqueça, deixa incendiar.

Contra-tempo

Você, meu contratempo, não é surpresa, são as expectativas, toda falácia e ainda falta palavras, falta coragem para reverter em fala o que vaza aqui, vazão de vontades, me esconde verdades, restrições.

Espera, ainda não parti, inteiro com duas metades, apresento o denominador comum, o espaço conhecido em lugar nenhum, o mesmo vácuo que determinou-se amor, o mesmo vácuo que nos formou.

Pressinta, é gasoso, está na mira, invisível a olho nu, me despiu de mim, me trouxe a nado, nada a me encontrar, atrai, não me deixa ir embora, estica um pouco, cede ao torno, deixa voltar.

Vírgula, pausa na respiração, percebe, estamos presos ao não, mas desce, solta o corrimão, fica, me leva, desconstrói a metade, dois terços em ti, dois terços aqui, esquece a sobra, eu e você,  adivinha,  contra o tempo.