Partícula “se”

Do se tirou vantagem, corroeu-se,
Confundiu-se forte e era em sua mente,
Na ilusão da solidão, contornou-se,
A pesar o amor que estava a sua frente.


Empoeirado na estante,
de enfeite,
Fez-se peso de papel,
de lembretes.


O tanto tornou-se o tempo,
E o tempo o acompanhava,
Mas não passava ileso,
Nada mais nele passava.


Até que acizentou-se,
Alienou-se de vida,
Endureceu-se por fora,
Emoldurou-se na saída.


Seguro em seu casulo,
Acostumado pelo medo,
Adormecido pela angústia,
Inerte como o vento.


Nos ses prendeu-se dentro,
Vivia pela dúvida,
Se seria amor ou se seria cura,
Se seria eu, você ou tua,
Se seria nós, qual seria a hora?
Se seria nosso, seria o agora?
Se seria o se, por que perder o tempo?
E se seria, se foi ou se partia. E se?

Inerte sentimento

Aquecido o canto do quarto.
As paredes viradas, os retratos.
A estante abraçava, acolhia o passado.
Vivia a contar a respiração, assim se guiava
E a história em voz baixa o contava:
Haja ferro em gaiolas e grades,
Portas, passagens, corações na garagem.
Haja dias fechados, estreitos, sem passos,
Todos os dias trancados no quarto.
O quinto de sanidade soprado ao ouvido,
Prelúdio do ditado, o sexto sentido.
Via, era visto,
Desvia, deixa o caminho,
Via-se vivo, seu inerte inimigo.
Desvia, delira, desvisto esvazia,
Guardou, ficou, tornou-se mobília,
Em um canto, junto ao sofá, os retratos.
A estante o abraça, acolhe seus passos,
Dois, três, segue o compasso,
Senta-se, sente-se, abandona o diário.
Os tempos se unem, o tempo, seu fardo.

1/3 Terços

Um terço de mim está decidido, a deixar no passado, rebobinar o destino, a passar, ser seguido pela dúvida, viver a angústia de nunca saber, de ter desistido.
E dois terços insistem, em lembrar, de nunca ter esquecido, de trazer a parte, separado em partes, preencher cada espaço do incapaz coração emendado, ficar a mercê de um terço terceiro, que está convencido do mesmo. Desproporcional, como todo amor que conheço, pendendo ao erro de aceitar ser um terço.
É estranho o quanto eu sabia, mesmo antes de sermos inteiros, o quanto o nós imergia no meu conceito, proporcional a outro sentimento, onde estive, manjado, como posso ter tantos terços, de quantas partes preciso para ser inteiro? E quanto falta, quanto cabe em meu peito?
O terço no meu quarto esconde o que guardo, enraízado percebo, é tanto que cabe em um minúsculo espaço no peito. Basta uma sinapse e armazeno os seus traços, rabiscos invisíveis que criei, empoeirados. No que resta a dizer, o comando, a convencer-me de não mudar de plano, mas são terços de mais torcendo a estar ao seu lado, torcido, me vejo no abismo, e cismo a tentar voar, insisto, sinto, os terços transcrevo e deixo pra lá.

Espirais (1)

Bate a porta, 5 passos dados, ainda não acostumada com a ideia de ter deixado, era como um filme de baixo orçamento, todos aqueles momentos em seu pensamento, não conseguia evitar. Se pudesse detalhar como se sentia, diria que não há caminho, mesmo tendo a vista destino, é como acompanhou o último sorriso, a miragem do abismo que escalará, a última memória lívida de uma vida que pouco foi vivida e ficou lá, na batida da porta, 5 passos atrás.
Chovia, como em todas manhãs desses dias, o tempo insistente em manter a harmonia, torna-se o espelho da agonia, bastava olhar para as nuves carregadas, como a vertigem, uma aura, toda angustia ali acumulada e caia sobre os ombros, pesadas batiam, respigavam desordenadas, as gotas juntas as lágrimas, estava sozinha, se acompanhava, fazia companhia a sua alma, mas não voltaria, mantinha o carma, não era sua culpa.
Ainda não chegou a lugar algum, mas a algum lugar chegaria, andava em direção contrária ao rumo de casa, já não era lar, não depois que partiu e disse que nunca retornaria, não depois de todas palavras soltas na calçada, mas onde poderia ir? Não lhe sobraram muitas migalhas, caminhos para seguir, enjaulada, era hora de ceder do orgulho, mergulhar fundo, deixar-se afogar.
Guiada por sua maldição, mudou sua direção, caminhava pela ruína, era tudo que conhecia e de onde nutria os versos de sua poesia, como poderia evitar? Como conteria a besta prestes a se libertar? Uma fração de mudança no tempo, fechou os olhos para o contento, percebeu estar em queda livre, dentro do próprio sofrimento, sim, era confortável, sentir o calor proveniente do seu abraço, era isso e nada mais
Na ponta do iceberg, apenas um cubo de gelo no oceano gelado, duraria os segundos necessários para liquificar.
Tic, tac, ouvia os segundos embalados pela rotina e pelo desespero, despreparado, o relógio traz o tempo ao seu lado, passa devagar como as batidas do coração, desacelerado, perdeu a fala, o compasso, inerte definia seu estado e como tem passado, todo passado revivido em seu quarto, pudera se livrar dos quadros, dos porta retratos, das gavetas cheias de folhas e retalhos, fragmentos de memórias embutidos nos desenhos das paredes, nos descascados.
Fresca a lembrança em seu subconsciente, o passado era sua fraqueza, a única forma de lembrar dos momentos acelerados, dos mesmos sorrisos que lembrara ao sair do carro, 5 segundos e todo o passado volta a atormentá-la. Ah! Se apenas tivesse passado, mas passa a todo tempo, presente desfigurado, sem sentido ou noção do tempo, presa no delírio, ele preso em teu peito, podia sentir.

Espirais (3)

5 anos e meio, já era tempo suficiente para esquecer, perdoar-se por deixar, já era tempo de ter deixado passar, mas havia uma força, um descontento , algo que agia desintencionadamente por dentro, um boicote a suas convicções, deixara de ser desejo em algum momento e se tornou alguma espécie de lamento, um bloqueio.
Rezava todas as noites, cada dia aumentava o tom, aumentava a tensão na pulsação dos seus músculos, involuntários movimentos, nunca mais relaxou, perdeu-se na busca de terceiras soluções, sabia que não adiantava se doar, afinal se entregar era ceder ao que acostumou ignorar, tirar o curativo, ter de novo o sorriso, mas também o premeditado reclínio a queda.
Nesse ponto conhecia-se em detalhado plano aberto, ficou vulnerável, previsível, previa-se tudo que aconteceria por vício.
Era o que sabia de si e se tornou o que menos esperava, mas agora na lúdica versão da vida restava seguir, era a veracidade que surtia efeito, o que lhe motivava a respirar mais um dia, por mais tempo, implorava, não havia mais nada, tornou-se relevante, importante, fazia-se necessária por fora e por dentro já não importava mais.

Espirais (4)

Anestesiada, em forma de suspiro deixava-se levar, não sobraram palavras em seu dicionário, pobre vocabulário, estava inerte a nadar, por vezes saltará, sentia-se livre em queda, mas depressa acaba, prende-se ao chão. Não era certeza a quem deveria culpar, deixou o se tornar-se a versão dos fatos, fantasia, deixou-se levar pela única fuga que encontrará e agora não conhecia os cantos do inaudível coração que carrega e leva como seu fardo, leva de lado e a frente não reside o passado, como seguir o que não se vê, como livrar-se do se?
Na cotidiana mesmisse das paisagens tornando-se borrões na janela, previa como seria todo o dia, nunca diferia, era idêntica, apenas aparências, de tom em tom de verde, cada árvore ali presente passava, os faróis, os carros, tanta gente, poucos sorrisos, passos e passos, sempre a frente, sem sal, por diversas vezes incolor e inodoro, passavam todos inconscientes, insensatos, os cabelos brancos crescendo em seus traços, e nada fazem, não agem, continuam a andar.
Por um lado se identificava, mesmo sabendo estar errada era onde se encaixava, no subconsciente da maioria que por ela passava, todos aqueles pensantes seres subindo a eterna escada da negação, conheciam-se, coexistiam na inércia de uma vida figurada, eram o que podiam ser.
O último boa noite marca o fim das horas contadas, leva-se a acreditar que o destino encarregou-se de mais uma charada revelada, o caminho traçado, entalhado, nada novo dizia-se do passado, tudo que ficou destinado a ser esquecido, menos uma hora, menos uma paisagem borrada em seu consciente, a manhã que segue a noite, é tarde, se repete, em tese é o alicerce, tudo que se sabe, tudo que significa essa viagem, velejar.

Espirais (5)

Cansada, escolhe encolher a estrada com frases prontas e paixões manjadas, guardou o diário na última gaveta da cômoda, a mesma onde guardava todas as permissões a tentar que juntara. Havia tanto que ainda enxergava, mas o tempo, em seu desespero de passar, não levava as concepções já geradas, era como quando não sabia nada além de que algo faltava, nomeou-se do que conquistou, era amada, convenceu-se que sua vontade não importava, mas era no reflexo que ficava todas as teorias de vida e raspava do tudo a única essência que encontrava, o amor de fora era o que nutria sua alma, seu ego, sua estada, deixou ser escalada, era nada ou permitir-se ser tomada e esvaziar.
Nos mapas perdia mais do que encontrava, fugia de seu corpo, sua realidade inanimada, possuia tanto amor em teoria que transbordava, no fundo sabia, jamais significara mais do que 2 centenas de ilusórias tentativas falhas, tantos sorrisos e sentidos que se tornaram nada, momentos esquecidos, destrancados, voaram da gaiola, sem causa.

Espirais (6)

Perdeu a inspiração, mas ainda estava viva, de forma desequilibrada inspirava, todavia parara de escrever por dias enquanto não encontrava vazão para ter fala, parecia que tudo estava ali, detalhado nas páginas rasgadas há muito tempo abandonadas. Quanto tempo se passou, quanto amor desperdiçou. No fundo sabia que a cada sentimento vestido de palavra se esvaziava, era o que mantinha a balança estabilizada, tudo o que sentia estava preso em suas fábulas. Nunca deixara ficar preso em sua pele, mas sua alma em segredo se queixava, era o incomodo ardor que sentia nas madrugadas, os sonhos que apareciam como aviso do que guardou na porta atrás da escada, escondida, atrás da parede que subiu ao redor de toda pulsação incontrolada, o mesmo lugar de onde surgiam as vontades inexplicadas. Naquela obstante sensação percebera que tudo que há tanto guardava, os capítulos de uma história incontada, não formavam apenas a memória que a bloqueava, formavam também a força que precisara para inspirar novamente, perder-se dentro do subconsciente, pender a balança, e mesmo que arda e o ciclo responda ao precedente, mesmo que o amor desmembrado esteja na patente, recomeçou, rendeu-se. No fim o retrato lembrava pouco dos fatos, era o gosto conhecidamente esquecido, o gatilho virado ao inimigo, era nada, estava contido. Não voltou a inspirar ritmadamente, mas pela primeira vez viu-se além de refletir, existia sozinha, era de verdade e sorria, estava solta de sua própria armadilha, respirou.