Não estou pronto para ser eu.

Em um dos meus rascunhos da realidade me coloquei invisível, em traços falhos minhas decisões deixaram de ser fatos, fácil como deixar a dor de lado, deixei de ser.
O horizonte ainda dividia o céu do mar, o mar ainda abrigava vida e o céu desaguava as nuvens do cinza.
Os outros ainda eram outros, em suas buscas diárias do sonho de outros, que apoiavam no outro razões de serem tolos.
Os nós continuavam atados no calçado, todos os dias fadados ao fardo, cada um vivia seu rascunho mal desenhado do que seria quando fosse algo mais do que havia de ser. (…)
Assim me vi, em uma forma abstrata, vagando por cantos em que antes eu era, me vi sumir do quadro, do espelho. Me vi despercebido, como uma estrela insistindo em ser reconhecido, mas indistinto, despido a olho nu, vi que eu era só um ponto, uma linha, um esboço do que era ser.

Caos

Inerte, como o verso de uma obra de arte a buscar o seu valor, nunca sentiu-se livre, e enquanto se apaixonava pelo tempo estagnou-se no caos.
Contradisse, transbordou metade das lembranças, guardou-se e criou o vácuo, orbitou em seu próprio espaço até colidir.
Metades, terços, quartos, pôs-se a prova, andou descalço, mirou no risco, acertou o marasmo, era solúvel, mas intragável, o gosto conhecido, engasgado, não era feliz ou triste, pelo contrário, era mais do que o estado de ser.
Foi quando percebeu o rarefeito toque do esquecimento, viu-se preso entre a companhia do caos e do medo, isolou-se, conheceu-se, transformou-se e do se fez companhia, velejou.

Mania

Se me passa um segundo, o sinto,
um instinto engatilhado, um vestígio.

Certo como um erro, perco a mão na dosagem,
do veneno que corrói e constrói a vontade.

Erro no uso do tanto e do quanto,
Deixo a deriva, a crescer o encanto.

Em resposta as memórias do abraço porvir,
Transformo em história o que posso sentir.

Moldo no vento as noções de querer,
Sem perceber quanto eu deixo de ser.

Assim me perco, me deixo aos poucos,
Me preencho em vazios, me torno o outro.

Anfêmero Lapso Emotivo

Coincide a passagem, a fração do segundo
Em que vejo você e descubro o embrulho,
Me calço de afeto, aperto a gravata,
Cedo ao sorriso, a necessidade e a falta.

Ecoo racional, reversível, forçado,
O ponteiro repete o palpite apressado.
Um segundo enrola nossos nós desatados,
E por dentro me perco procurando atalhos.

Palavras e passos nos prendem no tempo,
O passado insiste em recriar os meus erros,
Logo vem o atraso seguido da pressa,
O desespero da esperança pedindo uma trégua.

Me perco no tráfego de pessoas que passa,
E passa o tempo, o presente, a estrada,
Te procuro, escondido, cifrado em segredo,
O pensamento vestido do vestígio que vejo.

Coincide escoar a ausência de tento,
Enquanto engarrafo as memórias de agora,
Guardo a fração do segundo passado,
Descalço o afeto, te deixo a porta.

Quatro quartos

A pressa que me segue não deixa rastro, é como se a cada passo houvesse três a serem dados e não acompanho a rotação do destino ao redor de todos os astros que passam rasteiros ao meu lado, a me deixar.
Fumo o futuro, fumaça, o vento correndo de graça e nos cobrando atenção. Os fios brancos presos no asfalto, as linhas imaginárias que nos separam, os sinais que não dizem nada, a se partir.
A mil ano luz atrasado, as luzes refletem o passado, no estrado da cama vibra o som das batidas do coração acelerado, o fim da noite é sempre menos denso quando sinto o acochoado som da pressa em desespero, esperando a porta, observando as horas sem passar.
No geral resta tanto do pouco que sobra, me torno a ideia de vida lá fora, os verbos se perdem no vento, verdades são meros desejos, não sou além da consequência do tempo, a aguardar.
Do caos um quarto é refúgio, a razão de reconhecer o escuro, andando de luzes apagadas nas várias versões do meu ego, o seguro da imobilidade, a pressa coberta de calma, a se iludir.

Sistema

Eis que há vida e dela surge a insaciável aversão ao medo, que em seu casulo desenvolve-se sereno. Em parte tememos o que somos e a outra desconhecemos, logo o amor, em seu indiscutível domínio, nos tira a consciência e nos deixa o vício. Enquanto isso as paisagens tornam coloridos os borrões do tempo, os pássaros voam sobre nossas cabeças, certeiros, e ficamos aqui a desaconselhar-nos do único indício, o sinal conhecido da angústia, da vida que curta nos deixa brancos, em cinzas, tornando o amor uma fúnebre melodia, até não se escutar os pensamentos, entorpecidos, ocos, indignos, partidos na metade e a parte descansa o ócio e os ossos a desatar.

Inerte sentimento

Aquecido o canto do quarto.
As paredes viradas, os retratos.
A estante abraçava, acolhia o passado.
Vivia a contar a respiração, assim se guiava
E a história em voz baixa o contava:
Haja ferro em gaiolas e grades,
Portas, passagens, corações na garagem.
Haja dias fechados, estreitos, sem passos,
Todos os dias trancados no quarto.
O quinto de sanidade soprado ao ouvido,
Prelúdio do ditado, o sexto sentido.
Via, era visto,
Desvia, deixa o caminho,
Via-se vivo, seu inerte inimigo.
Desvia, delira, desvisto esvazia,
Guardou, ficou, tornou-se mobília,
Em um canto, junto ao sofá, os retratos.
A estante o abraça, acolhe seus passos,
Dois, três, segue o compasso,
Senta-se, sente-se, abandona o diário.
Os tempos se unem, o tempo, seu fardo.

Dívida

Esses olhos, olho, me perco, o quanto intenso pode ser o que vejo, nômade desejo, agindo pela busca da liberdade, não entendo e pouco importa o que se esconde atrás da porta. Logo o que vira, me encontra, a seguir as pistas, as rosas, a postos, aposto, sei que posso, me aconchego, um segundo de distância, só percebo agora, miopia, não te vejo como via, não parecia possível, mas lido, faço o que posso para entender o destino, lido, como me sinto, sem mistério, aos poucos me entrego, sei que percebe e é o que quero, não desvio, trago seu olhar comigo, acompanha, acampa em companhia, continua na minha, vem, me atrasa, faz falha a próxima linha de pensamento, do tempo, faz meu horizonte vertical, perde o jeito, eu chego, te digo nada, esses olhos, olho, me perco, começo do começo, de novo, voo, alcanço a velocidade, me passa, se atrasa, carrega contigo a chegada, aproximado, te encontro do outro lado, te encontro quando passo, fico parado, não há movimento, sem rota, roteiro, sou o mesmo, ainda perco o foco, esqueço o que não devo, sou muito óbvio, muito lógico, por isso te escrevo, lembre-se que te devo, de tudo que ficou, devo ficar.

1/3 Terços

Um terço de mim está decidido, a deixar no passado, rebobinar o destino, a passar, ser seguido pela dúvida, viver a angústia de nunca saber, de ter desistido.
E dois terços insistem, em lembrar, de nunca ter esquecido, de trazer a parte, separado em partes, preencher cada espaço do incapaz coração emendado, ficar a mercê de um terço terceiro, que está convencido do mesmo. Desproporcional, como todo amor que conheço, pendendo ao erro de aceitar ser um terço.
É estranho o quanto eu sabia, mesmo antes de sermos inteiros, o quanto o nós imergia no meu conceito, proporcional a outro sentimento, onde estive, manjado, como posso ter tantos terços, de quantas partes preciso para ser inteiro? E quanto falta, quanto cabe em meu peito?
O terço no meu quarto esconde o que guardo, enraízado percebo, é tanto que cabe em um minúsculo espaço no peito. Basta uma sinapse e armazeno os seus traços, rabiscos invisíveis que criei, empoeirados. No que resta a dizer, o comando, a convencer-me de não mudar de plano, mas são terços de mais torcendo a estar ao seu lado, torcido, me vejo no abismo, e cismo a tentar voar, insisto, sinto, os terços transcrevo e deixo pra lá.

Alomorfia

Apesar do coração ater-se a bater parado, em seu inerte estado em que parou e tem estado, em segredo, em uma parte distinta do lado esquerdo, bombeava-se algo desesperado, na busca de se encontrar, de ser encontrado. Em algum momento os pés deixaram de gravitacionar, de leve, por inteiro, flutuavam sobre o mar, era uma nova órbita no peito, deixou de sentir-se embaraçado, pelo abraço, pela mão ao lado ou pelo corpo respondendo aos gestos inesperados. Era, e tudo era inspirado, o ar rarefeito, raro, junto ao cheiro, que o movia, de fato.
Não foi muito tempo até que a perda da gravidade o soltou por dentro, foi a primeira vez que rompeu-se, inundou-se de tento, fez-se canoa a naufragar, aos poucos cedendo, se doando, sedento. Do ar fez morada, sem limite de chão, sem estradas, sem vento, a seguir todos caminhos, sem destino, ia, indistinto, até que em algum momento gravitacionar já não mais fazia sentido, perdera toda a razão que havia conhecido, fechou os olhos, deixou o mar, virou oceano, sempre a voar.
Por fim emancipou-se do tempo, passaram os dias como anos, fez-se presente, tornou-se detento, da liberdade, do amor, da cidade, vivera até viver não ser vívido, tornou-se o ar que respiro, tornou-se o eu que conheço, voou.