Não estou pronto para ser eu.

Em um dos meus rascunhos da realidade me coloquei invisível, em traços falhos minhas decisões deixaram de ser fatos, fácil como deixar a dor de lado, deixei de ser.
O horizonte ainda dividia o céu do mar, o mar ainda abrigava vida e o céu desaguava as nuvens do cinza.
Os outros ainda eram outros, em suas buscas diárias do sonho de outros, que apoiavam no outro razões de serem tolos.
Os nós continuavam atados no calçado, todos os dias fadados ao fardo, cada um vivia seu rascunho mal desenhado do que seria quando fosse algo mais do que havia de ser. (…)
Assim me vi, em uma forma abstrata, vagando por cantos em que antes eu era, me vi sumir do quadro, do espelho. Me vi despercebido, como uma estrela insistindo em ser reconhecido, mas indistinto, despido a olho nu, vi que eu era só um ponto, uma linha, um esboço do que era ser.

Incomodo

2 mil quilômetros de distância na mesma cama, não te enxergo no escuro, escute, estou cansado de ouvir, todos os dias a mesma confusão,  todos os caminhos na contramão.

Veja, esse sou eu, não sou tão inconstante, mesma carne, osso, alma e razão. Não nos cansamos da exatidão?  Das vozes em nossa cabeça nos convencendo a mudar a cor do quarto, da goteira regular pingando ao nosso lado, a mesma silhueta do amor imaginário, não te sinto, 2 mil kilometros afastados.

Me acostumei com o azul amarelado, achei que para você também estivesse confortável, pelo visto todo o tempo estou errado, pelo visto não tenho usado o olfato, afinal não sinto o seu cheiro amargo, será que ainda está aqui? Será que circula em mim?

Sinta o movimento coordenado dos nossos corações pelo estrado, melodia a minha cegueira, o único rumo que me guia, me segue pelo som, me acorde inaudível, acorde comigo, me segue.

Mania

Se me passa um segundo, o sinto,
um instinto engatilhado, um vestígio.

Certo como um erro, perco a mão na dosagem,
do veneno que corrói e constrói a vontade.

Erro no uso do tanto e do quanto,
Deixo a deriva, a crescer o encanto.

Em resposta as memórias do abraço porvir,
Transformo em história o que posso sentir.

Moldo no vento as noções de querer,
Sem perceber quanto eu deixo de ser.

Assim me perco, me deixo aos poucos,
Me preencho em vazios, me torno o outro.

Anfêmero Lapso Emotivo

Coincide a passagem, a fração do segundo
Em que vejo você e descubro o embrulho,
Me calço de afeto, aperto a gravata,
Cedo ao sorriso, a necessidade e a falta.

Ecoo racional, reversível, forçado,
O ponteiro repete o palpite apressado.
Um segundo enrola nossos nós desatados,
E por dentro me perco procurando atalhos.

Palavras e passos nos prendem no tempo,
O passado insiste em recriar os meus erros,
Logo vem o atraso seguido da pressa,
O desespero da esperança pedindo uma trégua.

Me perco no tráfego de pessoas que passa,
E passa o tempo, o presente, a estrada,
Te procuro, escondido, cifrado em segredo,
O pensamento vestido do vestígio que vejo.

Coincide escoar a ausência de tento,
Enquanto engarrafo as memórias de agora,
Guardo a fração do segundo passado,
Descalço o afeto, te deixo a porta.

Quatro quartos

A pressa que me segue não deixa rastro, é como se a cada passo houvesse três a serem dados e não acompanho a rotação do destino ao redor de todos os astros que passam rasteiros ao meu lado, a me deixar.
Fumo o futuro, fumaça, o vento correndo de graça e nos cobrando atenção. Os fios brancos presos no asfalto, as linhas imaginárias que nos separam, os sinais que não dizem nada, a se partir.
A mil ano luz atrasado, as luzes refletem o passado, no estrado da cama vibra o som das batidas do coração acelerado, o fim da noite é sempre menos denso quando sinto o acochoado som da pressa em desespero, esperando a porta, observando as horas sem passar.
No geral resta tanto do pouco que sobra, me torno a ideia de vida lá fora, os verbos se perdem no vento, verdades são meros desejos, não sou além da consequência do tempo, a aguardar.
Do caos um quarto é refúgio, a razão de reconhecer o escuro, andando de luzes apagadas nas várias versões do meu ego, o seguro da imobilidade, a pressa coberta de calma, a se iludir.

Jangada

Providencio a jangada, baixo a guarda e te deixo me navegar rio abaixo, o fato é que falta tato para alcançar o seu estado sólido, e solidificado trago ao meu pulmão o que o coração não carrega, te respiro e torno-o ar espesso, difícil de tragar o respingo do que me sobra do seu amor. A brecha no contrato é o retrato do meu ego, deslanchando a avalanche que me cobre, tempesteia, me torna a areia que cobre o oceano a te procurar, é o encontro do oposto, a contra proposta, o inferno as nossas costas a alcançar o que era, e erra, me deixa errar, me deixa levar seu coração de pedra a beira do abismo, o jogo, te sinto, o som oco, ecoando nas paredes da costela, incendeia, veleja as veias da jangada de madeira viva e o amor que peço, a remar.

Sonho

Percebi que parei de discernir a realidade quando os fatos se confundiam entre sonhos dormindo e acordado. Da frutífera imaginação veio o trato selado entre minha óbvia intenção de te amar e o racional inanimado, mas ainda assim faltava algo a pulsionar a veia que nutria a única sinapse ativa, a única guia gritando a desesperar-se, a perder a paciência, a entregar-te.
Em total silêncio me via no espelho acima, o tempo corria e as fases do dia se confundiam no quarto escuro, pouco nítidas ouvia as vozes ao fundo, ofuscadas pelas vistas anestesiadas a forçar as pálpebras, deixando-me levar pela ilógica noção conjunta de vida, deixando-me levar pela lucidez do que via, deixando-me ir.

Sistema

Eis que há vida e dela surge a insaciável aversão ao medo, que em seu casulo desenvolve-se sereno. Em parte tememos o que somos e a outra desconhecemos, logo o amor, em seu indiscutível domínio, nos tira a consciência e nos deixa o vício. Enquanto isso as paisagens tornam coloridos os borrões do tempo, os pássaros voam sobre nossas cabeças, certeiros, e ficamos aqui a desaconselhar-nos do único indício, o sinal conhecido da angústia, da vida que curta nos deixa brancos, em cinzas, tornando o amor uma fúnebre melodia, até não se escutar os pensamentos, entorpecidos, ocos, indignos, partidos na metade e a parte descansa o ócio e os ossos a desatar.

Contrapasso

Em sua breve explicação dos porques de não sentir, sentia, era mesmo uma doença social, uma virtude esquecida. Demasiado, a representatividade do afeto em sua vida o tornava mais pele do que músculo, invertebrado. Por longos anos se fez indiferente, reprimiu-se em metade do que acreditava coerente, dava-se como louco, um cientista apaixonado, entretanto era oco, um poeta de ditados.
Até que houve o fato:
Um estalo. Em uma tarde em seu retiro apareceu algo fora do ordinário. Uma reação química, biológica, a energia transferida em uma sinapse neurológica. Da esquerda a direita, até um espaço consciente, sintonizados os neurônios transferiam em sua mente, a nova presença vertia do imaginário, um conjunto de sentidos antes nunca alcançado.
Foi suficiente.
As linhas que conduziam os pensamentos pela sua mente estavam alinhadas a uma expectativa cega, algo antigo, mas novo o suficiente para fazer o estômago girar três vezes em sentido horário.
Era febre, sentia o frio por fora, todavia por dentro queimava em sentimentos, como bruxaria, o coração cada vez mais pesava enquanto sentia ao seu lado o toque empoeirado do destino, transformando-o, partindo, deixando o corpo, o possuindo. Definia-se assim o que sentia, nomeado de amor, ecoando agonia.
Em um duelo intrapessoal discutia, dentro de ser o que de fato seria. Quem derá não deu instrução, sua resposta era uma constante dúvida, chovia lá fora, o som o conduzia no seu particular conflito, era o mito contra a realidade, a corrupção de sua mais genuína verdade, inaceitável, o amor em seus curtos passos o alcançava, lentamente concebia, moldava, tornava lembrança, o dissecava. Negava sua dada imperfeição ao espelho, tornou-se raíz migrando o desejo, encubiu-se, florescia, semeava amor e temia, era futuro demais a imaginar, sonhos demais a materializar, a vida como síntese de querer, predizia, tornava-se chão e caia.

Culpados

Desculpa, foge o controle do sentido, te sinto, enquanto se move a saudade, invisível, no sentido contrário, estala o coração em pausa, o faz respirar.
Me culpa, insisto, contra o acaso, o destino, me faço morada de possibilidades, avanço a saudade, a guio, torno-a o vício, o tento, e tento, inspiro a respirar, respiro, não deixo parar.
Te culpo, pela distância visível, que longa naufraga, ainda que rasa, não deixa ser de verdade, nos deixa a mercer, no entrave, nos prende a respiração.
Ambíguo culpado, impedido, o amor vestido de culpa, indefinido, sobra a distância medida, sigo os passos e os pés calejados tornam a respirar.