Incomodo

2 mil quilômetros de distância na mesma cama, não te enxergo no escuro, escute, estou cansado de ouvir, todos os dias a mesma confusão,  todos os caminhos na contramão.

Veja, esse sou eu, não sou tão inconstante, mesma carne, osso, alma e razão. Não nos cansamos da exatidão?  Das vozes em nossa cabeça nos convencendo a mudar a cor do quarto, da goteira regular pingando ao nosso lado, a mesma silhueta do amor imaginário, não te sinto, 2 mil kilometros afastados.

Me acostumei com o azul amarelado, achei que para você também estivesse confortável, pelo visto todo o tempo estou errado, pelo visto não tenho usado o olfato, afinal não sinto o seu cheiro amargo, será que ainda está aqui? Será que circula em mim?

Sinta o movimento coordenado dos nossos corações pelo estrado, melodia a minha cegueira, o único rumo que me guia, me segue pelo som, me acorde inaudível, acorde comigo, me segue.

Caos

Inerte, como o verso de uma obra de arte a buscar o seu valor, nunca sentiu-se livre, e enquanto se apaixonava pelo tempo estagnou-se no caos.
Contradisse, transbordou metade das lembranças, guardou-se e criou o vácuo, orbitou em seu próprio espaço até colidir.
Metades, terços, quartos, pôs-se a prova, andou descalço, mirou no risco, acertou o marasmo, era solúvel, mas intragável, o gosto conhecido, engasgado, não era feliz ou triste, pelo contrário, era mais do que o estado de ser.
Foi quando percebeu o rarefeito toque do esquecimento, viu-se preso entre a companhia do caos e do medo, isolou-se, conheceu-se, transformou-se e do se fez companhia, velejou.

Quatro quartos

A pressa que me segue não deixa rastro, é como se a cada passo houvesse três a serem dados e não acompanho a rotação do destino ao redor de todos os astros que passam rasteiros ao meu lado, a me deixar.
Fumo o futuro, fumaça, o vento correndo de graça e nos cobrando atenção. Os fios brancos presos no asfalto, as linhas imaginárias que nos separam, os sinais que não dizem nada, a se partir.
A mil ano luz atrasado, as luzes refletem o passado, no estrado da cama vibra o som das batidas do coração acelerado, o fim da noite é sempre menos denso quando sinto o acochoado som da pressa em desespero, esperando a porta, observando as horas sem passar.
No geral resta tanto do pouco que sobra, me torno a ideia de vida lá fora, os verbos se perdem no vento, verdades são meros desejos, não sou além da consequência do tempo, a aguardar.
Do caos um quarto é refúgio, a razão de reconhecer o escuro, andando de luzes apagadas nas várias versões do meu ego, o seguro da imobilidade, a pressa coberta de calma, a se iludir.

Desarmado

Em cinzas, recolhido, posto à prova, escondido. O amor o deixou de lado quando resolveu segui-lo. Deixou-se desarmado, a alma à vista, vulnerável, consequente a sua frenética obsessão de bater acelerado deixava-o se mostrar vivo. Poderia ter sido, mas a vertente do destino em seu descuidado acidente entregou-se ao som de alerta, partiu-se, afogou-se em seu vício. Sem semáforo, desabou a última peça da armadura que o guiava, certo ou errado, o falso julgamento do passado e as lembranças a se apagar.

Culpados

Desculpa, foge o controle do sentido, te sinto, enquanto se move a saudade, invisível, no sentido contrário, estala o coração em pausa, o faz respirar.
Me culpa, insisto, contra o acaso, o destino, me faço morada de possibilidades, avanço a saudade, a guio, torno-a o vício, o tento, e tento, inspiro a respirar, respiro, não deixo parar.
Te culpo, pela distância visível, que longa naufraga, ainda que rasa, não deixa ser de verdade, nos deixa a mercer, no entrave, nos prende a respiração.
Ambíguo culpado, impedido, o amor vestido de culpa, indefinido, sobra a distância medida, sigo os passos e os pés calejados tornam a respirar.

Sentido

Sem sentido, te sinto, sentindo, impossível. É assim quando estou contigo, totalmente sem sentido, o que passa me leva desatento, cego, só sinto seu cheiro. No tato, o abraço e o sabor teu que trago, gasoso, sou pouco entre tantos, entretanto escuto, te dou toda atenção do mundo. Eu corro, te risco, guardo o retrato, o rabisco, arrisco, tiro um sorriso e retorno ao passado, respiro fundo, em câmera lenta, me perco em memórias, destranco a gaveta.
Deixo ser nítido, visual e solícito, o que sinto espero que fique em lembrança e que a esperança se molde a saudade, sem precendente, pendurada a parede e assim vaza o que sou, entalhado te aguardo, parado, ensaiado, em queda livre o observando do alto, miro, impossível, sentindo, te sinto, sem sentido.

Contagem

Perco, retorna, contagem, as horas,
É assim que esqueço, deixo aos poucos.
Recolho o vazio do espaço oco,
Enxáguo o amor, despeso-o do ombro.
Caminho, a volta, contagem, as horas,
É elástico, o passo preso ao abraço,
Dobro o amor, passo e guardo
Um quarto fica, de novo aguardo,
até você partir.

Segredo

Tenho contado, cada palavra dita, meu ditado, palavras perdidas no diário, na nuvem, no teto do quarto, quando imagino tenho você comigo e me bastaria, meia vida se fosse assim que viveria.
Sem ver, te conto os quatro cantos do meu quarto, meu dia e os detalhes entalhados, é a metade direita que soma, que aguarda, guardando na pequena bagagem, na mala traz a tona a vontade, sem tempo, sem jeito, já não sei como não ter você em todos pensamentos, como posso controlar se não tento? Como posso ter menos de você em meu peito?
Precipitado, como sempre do lado esquerdo soa o alerta, os ponteiros que param, parece que é mesmo o medo de perder, do passado, de respirar sem saber se há vida, antecipado, se há via para percorrer ao teu lado. Pudesse ser esse o último dia do segredo, puderá ser convicta, a clareza da certeza absoluta, mas é hora atrás de minuto, pressa, o absurdo, conto até 10 a cada segundo.
Desacelero, mantenho o silêncio, deixo ser teu também o segredo, espero me contar, quanto é a soma do que sente, os teus anseios, de que precisaria, que meia vida bastaria, se eu estaria, se haveria nós, se um dia haveria, amor.

Inerte sentimento

Aquecido o canto do quarto.
As paredes viradas, os retratos.
A estante abraçava, acolhia o passado.
Vivia a contar a respiração, assim se guiava
E a história em voz baixa o contava:
Haja ferro em gaiolas e grades,
Portas, passagens, corações na garagem.
Haja dias fechados, estreitos, sem passos,
Todos os dias trancados no quarto.
O quinto de sanidade soprado ao ouvido,
Prelúdio do ditado, o sexto sentido.
Via, era visto,
Desvia, deixa o caminho,
Via-se vivo, seu inerte inimigo.
Desvia, delira, desvisto esvazia,
Guardou, ficou, tornou-se mobília,
Em um canto, junto ao sofá, os retratos.
A estante o abraça, acolhe seus passos,
Dois, três, segue o compasso,
Senta-se, sente-se, abandona o diário.
Os tempos se unem, o tempo, seu fardo.

Dívida

Esses olhos, olho, me perco, o quanto intenso pode ser o que vejo, nômade desejo, agindo pela busca da liberdade, não entendo e pouco importa o que se esconde atrás da porta. Logo o que vira, me encontra, a seguir as pistas, as rosas, a postos, aposto, sei que posso, me aconchego, um segundo de distância, só percebo agora, miopia, não te vejo como via, não parecia possível, mas lido, faço o que posso para entender o destino, lido, como me sinto, sem mistério, aos poucos me entrego, sei que percebe e é o que quero, não desvio, trago seu olhar comigo, acompanha, acampa em companhia, continua na minha, vem, me atrasa, faz falha a próxima linha de pensamento, do tempo, faz meu horizonte vertical, perde o jeito, eu chego, te digo nada, esses olhos, olho, me perco, começo do começo, de novo, voo, alcanço a velocidade, me passa, se atrasa, carrega contigo a chegada, aproximado, te encontro do outro lado, te encontro quando passo, fico parado, não há movimento, sem rota, roteiro, sou o mesmo, ainda perco o foco, esqueço o que não devo, sou muito óbvio, muito lógico, por isso te escrevo, lembre-se que te devo, de tudo que ficou, devo ficar.