1/3 Terços

Um terço de mim está decidido, a deixar no passado, rebobinar o destino, a passar, ser seguido pela dúvida, viver a angústia de nunca saber, de ter desistido.
E dois terços insistem, em lembrar, de nunca ter esquecido, de trazer a parte, separado em partes, preencher cada espaço do incapaz coração emendado, ficar a mercê de um terço terceiro, que está convencido do mesmo. Desproporcional, como todo amor que conheço, pendendo ao erro de aceitar ser um terço.
É estranho o quanto eu sabia, mesmo antes de sermos inteiros, o quanto o nós imergia no meu conceito, proporcional a outro sentimento, onde estive, manjado, como posso ter tantos terços, de quantas partes preciso para ser inteiro? E quanto falta, quanto cabe em meu peito?
O terço no meu quarto esconde o que guardo, enraízado percebo, é tanto que cabe em um minúsculo espaço no peito. Basta uma sinapse e armazeno os seus traços, rabiscos invisíveis que criei, empoeirados. No que resta a dizer, o comando, a convencer-me de não mudar de plano, mas são terços de mais torcendo a estar ao seu lado, torcido, me vejo no abismo, e cismo a tentar voar, insisto, sinto, os terços transcrevo e deixo pra lá.

Alomorfia

Apesar do coração ater-se a bater parado, em seu inerte estado em que parou e tem estado, em segredo, em uma parte distinta do lado esquerdo, bombeava-se algo desesperado, na busca de se encontrar, de ser encontrado. Em algum momento os pés deixaram de gravitacionar, de leve, por inteiro, flutuavam sobre o mar, era uma nova órbita no peito, deixou de sentir-se embaraçado, pelo abraço, pela mão ao lado ou pelo corpo respondendo aos gestos inesperados. Era, e tudo era inspirado, o ar rarefeito, raro, junto ao cheiro, que o movia, de fato.
Não foi muito tempo até que a perda da gravidade o soltou por dentro, foi a primeira vez que rompeu-se, inundou-se de tento, fez-se canoa a naufragar, aos poucos cedendo, se doando, sedento. Do ar fez morada, sem limite de chão, sem estradas, sem vento, a seguir todos caminhos, sem destino, ia, indistinto, até que em algum momento gravitacionar já não mais fazia sentido, perdera toda a razão que havia conhecido, fechou os olhos, deixou o mar, virou oceano, sempre a voar.
Por fim emancipou-se do tempo, passaram os dias como anos, fez-se presente, tornou-se detento, da liberdade, do amor, da cidade, vivera até viver não ser vívido, tornou-se o ar que respiro, tornou-se o eu que conheço, voou.

Invisível

Não peço que me note, mas anote, as paradas súbitas do coração acelerado, é intencional, não tenciono os músculos a funcionar. Minha fraqueza, sempre a mesma, o ponto cego, entre a total falta de luz e a clareza, o ego, no escuro, inapto a enxergar, isso é tudo, tudo o que poderia ser.
Tem horas que te encontro em meu pensamento, essa é a razão que uso para manter o movimento, a rotação, eu cedo, te deixo dentro, até que em algum momento, inesperado, estou inspirando o seu cheiro intragável, esquentando os restos do amor no prato, deixando ser suficiente, acredito, estou consciente, aceito a parte que me sobra, as sobras do seu desejo, preencho, até que me pego preso, enquanto troco de lugar, aceito a cela e te deixo voar.
Me pergunto, que tipo de amor é do seu conhecimento, o que constrói pontes ou o elo entre a aceitação e o afago ao ego. Questiono, o quanto posso manter desses desejos, da fraqueza, o quanto aguento, até perder a essência, até ceder a indecência de um amor refutável, ficar estagnado, encarcerado pela falta e da falta, sobrar, e da falta, fazer-te amor, fazer-te amar.

Inaudível

Não digo, reconheço, não sei dizer o que penso, e quando tento, não sei como te digo, não sei te fazer ficar.
Eis o lema do ditado, não chegar a onde foi mandado, tornar-se dizeres inaptos, apenas divagar.
Devagar como sinal de fumaça, fica na beira da praia, encontra o abismo e para, quase a despencar.
E se fosse sulficiente, colocaria em fogo, em braza ardente, até solidificar. E das cinzas ali deixadas, a sinapse fazendo-se clara, a nós a essência declara, a reflorestar.
Poderia,
Se houvesse o dom,
Andorinha,
Há se me desse chão.
Seria como ter olhos, ser guia, só assim eu andaria, desbravando as teorias, desabando a desaguar.
Assim mesmo é o amor, como a cortina arrastada ao vento, sempre dependendo, pendendo a direção do intento, sem pestanejar. E se me sopra voo ao seu caminho, volto, mesmo sozinho, fico a rodear. Rodeio a felicidade e faço dessa cidade um coração habitável, esperando pelo tratado, a unir o vento a cortina, e a eles acompanhar.

Mudo

Escolhi desconstruir a memória do que sabia de mim, já era hora, vinha a tona e ia, pelas bordas, trazendo o acaso, e no ralo iam os cabelos cacheados, a renovada verdade no espelho, o toque do desespero, me vi, parado, em ecstasy, viciado, o sapato apertado, muitos passos atrasado, como pude ter ficado, exatamente do lado direito, perdido, desencadeado, no canto, apertado, esperando acelerar, tecendo surtir, torcendo sentir, pobre vertebrado, não se move, entalado, se desafia, trato é trato, ora liberdade, reza, inseguro na pressa, em cima do muro, sai do casulo, é chão demais a andar de lado, prende-se ao casaco, sente o frio entrar, senta-se a esperar, intacto, a consequência do impacto, já era hora.

Ceder

Não acredito, é história, toda essa bagagem e você não se importa de ir embora ? Sabe, tenho espaço, em um ou outro canto penduramos alguns quadros, mas não faltará vazio a preencher, não faltará vontade.
Verdade, é o seu medo, de encontrar o que deseja em meu beijo, de abraçar o abismo, cair sem direção, sem sentido, não atar sua mão.
As árvores ainda passam despercebido, perdi a conta de quantas vimos no caminho, viajamos metros ao quadrado parados em um cômodo revirado, visitamos o desvio do senso, o triângulo circulando nossos passos, 3 pontas de nós.
Desligado, apagou­ se para impedir incêndio, é frio, é queda, somos tudo que prevemos, antes de virar o ponteiro, meia noite, meio dia, enquanto dividem o tempo, conto no espelho, vejo no reflexo o contrário do desejo, não sei se sou abrigo ou refúgio, não acredito, é história, com tanta bagagem, de verdade, deseja ir embora?

Te peço, impeço a passagem pela porta, te chamo, retorna, não precisa ir embora. Perde a rota, esquece o tempo, sequestro o seu ímpeto segredo, me recompensa, me aqueça, deixa incendiar.

Combustão

Não é força, é jeito, vontade e aptidão. Inabilidade é ócio. O amor pode te esperar a porta, mas a porta tem trancas demais. Análogo o modo como nos vemos nos olhos do outro, como espelhos das nossas almas. Somos sim, seres criativos, criamos todos os reveses da razão e revezamos em escolhas, certas ou erradas, forçando a barra. Na aptidão encontramos o tato para o inoportuno, isso quando o ócio em tentar o novo não torna de novo. A chave para encontrar algum sentido é não esperar sentir e apenas deixar que se sinta, fluir, destrancar do estômago a agorafobia constante, dividir, ser amante, ser amado, ser amor e sentir o ser, sentir-se.