Maré alta

Materializado,
Reflito em seus olhos avermelhados
Enquanto soa o mar noturno ao lado
Retrato o olhar interessado
Ressoando as ondas do mar, embalados.

Considero encaixá-lo,
Desconstruo o passado,
Concebo teorias,
Troco as rotinas,
Não quero ir embora.
O vento lá fora,
Meu corpo ignora,
Cesso o tempo,
Resta o agora,
Dopamina,
Esqueço de ser,
Sou com você,
O que há de mim.

Por fim reitero,
Trague me como o trago,
Nade me como o nado,
Dimensione-me a imensidão,
Cubra-me de tato,
Sedimenta,
Torne-nos a areia,
Na ampulheta a girar.

Não estou pronto para ser eu.

Em um dos meus rascunhos da realidade me coloquei invisível, em traços falhos minhas decisões deixaram de ser fatos, fácil como deixar a dor de lado, deixei de ser.
O horizonte ainda dividia o céu do mar, o mar ainda abrigava vida e o céu desaguava as nuvens do cinza.
Os outros ainda eram outros, em suas buscas diárias do sonho de outros, que apoiavam no outro razões de serem tolos.
Os nós continuavam atados no calçado, todos os dias fadados ao fardo, cada um vivia seu rascunho mal desenhado do que seria quando fosse algo mais do que havia de ser. (…)
Assim me vi, em uma forma abstrata, vagando por cantos em que antes eu era, me vi sumir do quadro, do espelho. Me vi despercebido, como uma estrela insistindo em ser reconhecido, mas indistinto, despido a olho nu, vi que eu era só um ponto, uma linha, um esboço do que era ser.

Incomodo

2 mil quilômetros de distância na mesma cama, não te enxergo no escuro, escute, estou cansado de ouvir, todos os dias a mesma confusão,  todos os caminhos na contramão.

Veja, esse sou eu, não sou tão inconstante, mesma carne, osso, alma e razão. Não nos cansamos da exatidão?  Das vozes em nossa cabeça nos convencendo a mudar a cor do quarto, da goteira regular pingando ao nosso lado, a mesma silhueta do amor imaginário, não te sinto, 2 mil kilometros afastados.

Me acostumei com o azul amarelado, achei que para você também estivesse confortável, pelo visto todo o tempo estou errado, pelo visto não tenho usado o olfato, afinal não sinto o seu cheiro amargo, será que ainda está aqui? Será que circula em mim?

Sinta o movimento coordenado dos nossos corações pelo estrado, melodia a minha cegueira, o único rumo que me guia, me segue pelo som, me acorde inaudível, acorde comigo, me segue.

Caos

Inerte, como o verso de uma obra de arte a buscar o seu valor, nunca sentiu-se livre, e enquanto se apaixonava pelo tempo estagnou-se no caos.
Contradisse, transbordou metade das lembranças, guardou-se e criou o vácuo, orbitou em seu próprio espaço até colidir.
Metades, terços, quartos, pôs-se a prova, andou descalço, mirou no risco, acertou o marasmo, era solúvel, mas intragável, o gosto conhecido, engasgado, não era feliz ou triste, pelo contrário, era mais do que o estado de ser.
Foi quando percebeu o rarefeito toque do esquecimento, viu-se preso entre a companhia do caos e do medo, isolou-se, conheceu-se, transformou-se e do se fez companhia, velejou.

Mania

Se me passa um segundo, o sinto,
um instinto engatilhado, um vestígio.

Certo como um erro, perco a mão na dosagem,
do veneno que corrói e constrói a vontade.

Erro no uso do tanto e do quanto,
Deixo a deriva, a crescer o encanto.

Em resposta as memórias do abraço porvir,
Transformo em história o que posso sentir.

Moldo no vento as noções de querer,
Sem perceber quanto eu deixo de ser.

Assim me perco, me deixo aos poucos,
Me preencho em vazios, me torno o outro.

Partícula “se”

Do se tirou vantagem, corroeu-se,
Confundiu-se forte e era em sua mente,
Na ilusão da solidão, contornou-se,
A pesar o amor que estava a sua frente.


Empoeirado na estante,
de enfeite,
Fez-se peso de papel,
de lembretes.


O tanto tornou-se o tempo,
E o tempo o acompanhava,
Mas não passava ileso,
Nada mais nele passava.


Até que acizentou-se,
Alienou-se de vida,
Endureceu-se por fora,
Emoldurou-se na saída.


Seguro em seu casulo,
Acostumado pelo medo,
Adormecido pela angústia,
Inerte como o vento.


Nos ses prendeu-se dentro,
Vivia pela dúvida,
Se seria amor ou se seria cura,
Se seria eu, você ou tua,
Se seria nós, qual seria a hora?
Se seria nosso, seria o agora?
Se seria o se, por que perder o tempo?
E se seria, se foi ou se partia. E se?

Anfêmero Lapso Emotivo

Coincide a passagem, a fração do segundo
Em que vejo você e descubro o embrulho,
Me calço de afeto, aperto a gravata,
Cedo ao sorriso, a necessidade e a falta.

Ecoo racional, reversível, forçado,
O ponteiro repete o palpite apressado.
Um segundo enrola nossos nós desatados,
E por dentro me perco procurando atalhos.

Palavras e passos nos prendem no tempo,
O passado insiste em recriar os meus erros,
Logo vem o atraso seguido da pressa,
O desespero da esperança pedindo uma trégua.

Me perco no tráfego de pessoas que passa,
E passa o tempo, o presente, a estrada,
Te procuro, escondido, cifrado em segredo,
O pensamento vestido do vestígio que vejo.

Coincide escoar a ausência de tento,
Enquanto engarrafo as memórias de agora,
Guardo a fração do segundo passado,
Descalço o afeto, te deixo a porta.

Quatro quartos

A pressa que me segue não deixa rastro, é como se a cada passo houvesse três a serem dados e não acompanho a rotação do destino ao redor de todos os astros que passam rasteiros ao meu lado, a me deixar.
Fumo o futuro, fumaça, o vento correndo de graça e nos cobrando atenção. Os fios brancos presos no asfalto, as linhas imaginárias que nos separam, os sinais que não dizem nada, a se partir.
A mil ano luz atrasado, as luzes refletem o passado, no estrado da cama vibra o som das batidas do coração acelerado, o fim da noite é sempre menos denso quando sinto o acochoado som da pressa em desespero, esperando a porta, observando as horas sem passar.
No geral resta tanto do pouco que sobra, me torno a ideia de vida lá fora, os verbos se perdem no vento, verdades são meros desejos, não sou além da consequência do tempo, a aguardar.
Do caos um quarto é refúgio, a razão de reconhecer o escuro, andando de luzes apagadas nas várias versões do meu ego, o seguro da imobilidade, a pressa coberta de calma, a se iludir.

Desarmado

Em cinzas, recolhido, posto à prova, escondido. O amor o deixou de lado quando resolveu segui-lo. Deixou-se desarmado, a alma à vista, vulnerável, consequente a sua frenética obsessão de bater acelerado deixava-o se mostrar vivo. Poderia ter sido, mas a vertente do destino em seu descuidado acidente entregou-se ao som de alerta, partiu-se, afogou-se em seu vício. Sem semáforo, desabou a última peça da armadura que o guiava, certo ou errado, o falso julgamento do passado e as lembranças a se apagar.

Jangada

Providencio a jangada, baixo a guarda e te deixo me navegar rio abaixo, o fato é que falta tato para alcançar o seu estado sólido, e solidificado trago ao meu pulmão o que o coração não carrega, te respiro e torno-o ar espesso, difícil de tragar o respingo do que me sobra do seu amor. A brecha no contrato é o retrato do meu ego, deslanchando a avalanche que me cobre, tempesteia, me torna a areia que cobre o oceano a te procurar, é o encontro do oposto, a contra proposta, o inferno as nossas costas a alcançar o que era, e erra, me deixa errar, me deixa levar seu coração de pedra a beira do abismo, o jogo, te sinto, o som oco, ecoando nas paredes da costela, incendeia, veleja as veias da jangada de madeira viva e o amor que peço, a remar.