Destino

Desconsidero ir embora, assumo a perda da direção, não sigo, apenas caminho, cego me guio, me convenço de não atender seu sinal de perigo, ainda assim estou ao seu encontro, me deixa tonto considerar o quanto o destino tem sido desonesto, me testo, me entrego a última sensação de um coração pedinte, o contento momentâneo do seu calor vindo junto ao vento. Quem dera explicar a falta como espera, mas já não me emprestam visão, e estou prestes a ver do escuro, a silhueta, cego por te ver. Ainda sem caminho, pegadas levadas pelo destino, desce a força, o roteiro ensaiado, sua imagem, tudo a ver. Tê-lo ao meu lado foi escolha, a ressaca, a bonança, subtraído abraço, o olhar ao espaço, derivando à deriva, em alta voltagem e abaixo a dor, abaixo amor, abaixou.
Foi a última escolha, deixei descer entalado com todos os outros sentimentos que haviam ficado, deixei de ser.

Ceder

Não acredito, é história, toda essa bagagem e você não se importa de ir embora ? Sabe, tenho espaço, em um ou outro canto penduramos alguns quadros, mas não faltará vazio a preencher, não faltará vontade.
Verdade, é o seu medo, de encontrar o que deseja em meu beijo, de abraçar o abismo, cair sem direção, sem sentido, não atar sua mão.
As árvores ainda passam despercebido, perdi a conta de quantas vimos no caminho, viajamos metros ao quadrado parados em um cômodo revirado, visitamos o desvio do senso, o triângulo circulando nossos passos, 3 pontas de nós.
Desligado, apagou­ se para impedir incêndio, é frio, é queda, somos tudo que prevemos, antes de virar o ponteiro, meia noite, meio dia, enquanto dividem o tempo, conto no espelho, vejo no reflexo o contrário do desejo, não sei se sou abrigo ou refúgio, não acredito, é história, com tanta bagagem, de verdade, deseja ir embora?

Te peço, impeço a passagem pela porta, te chamo, retorna, não precisa ir embora. Perde a rota, esquece o tempo, sequestro o seu ímpeto segredo, me recompensa, me aqueça, deixa incendiar.

Contra-tempo

Você, meu contratempo, não é surpresa, são as expectativas, toda falácia e ainda falta palavras, falta coragem para reverter em fala o que vaza aqui, vazão de vontades, me esconde verdades, restrições.

Espera, ainda não parti, inteiro com duas metades, apresento o denominador comum, o espaço conhecido em lugar nenhum, o mesmo vácuo que determinou-se amor, o mesmo vácuo que nos formou.

Pressinta, é gasoso, está na mira, invisível a olho nu, me despiu de mim, me trouxe a nado, nada a me encontrar, atrai, não me deixa ir embora, estica um pouco, cede ao torno, deixa voltar.

Vírgula, pausa na respiração, percebe, estamos presos ao não, mas desce, solta o corrimão, fica, me leva, desconstrói a metade, dois terços em ti, dois terços aqui, esquece a sobra, eu e você,  adivinha,  contra o tempo.