Não estou pronto para ser eu.

Em um dos meus rascunhos da realidade me coloquei invisível, em traços falhos minhas decisões deixaram de ser fatos, fácil como deixar a dor de lado, deixei de ser.
O horizonte ainda dividia o céu do mar, o mar ainda abrigava vida e o céu desaguava as nuvens do cinza.
Os outros ainda eram outros, em suas buscas diárias do sonho de outros, que apoiavam no outro razões de serem tolos.
Os nós continuavam atados no calçado, todos os dias fadados ao fardo, cada um vivia seu rascunho mal desenhado do que seria quando fosse algo mais do que havia de ser. (…)
Assim me vi, em uma forma abstrata, vagando por cantos em que antes eu era, me vi sumir do quadro, do espelho. Me vi despercebido, como uma estrela insistindo em ser reconhecido, mas indistinto, despido a olho nu, vi que eu era só um ponto, uma linha, um esboço do que era ser.

Quatro quartos

A pressa que me segue não deixa rastro, é como se a cada passo houvesse três a serem dados e não acompanho a rotação do destino ao redor de todos os astros que passam rasteiros ao meu lado, a me deixar.
Fumo o futuro, fumaça, o vento correndo de graça e nos cobrando atenção. Os fios brancos presos no asfalto, as linhas imaginárias que nos separam, os sinais que não dizem nada, a se partir.
A mil ano luz atrasado, as luzes refletem o passado, no estrado da cama vibra o som das batidas do coração acelerado, o fim da noite é sempre menos denso quando sinto o acochoado som da pressa em desespero, esperando a porta, observando as horas sem passar.
No geral resta tanto do pouco que sobra, me torno a ideia de vida lá fora, os verbos se perdem no vento, verdades são meros desejos, não sou além da consequência do tempo, a aguardar.
Do caos um quarto é refúgio, a razão de reconhecer o escuro, andando de luzes apagadas nas várias versões do meu ego, o seguro da imobilidade, a pressa coberta de calma, a se iludir.

Culpados

Desculpa, foge o controle do sentido, te sinto, enquanto se move a saudade, invisível, no sentido contrário, estala o coração em pausa, o faz respirar.
Me culpa, insisto, contra o acaso, o destino, me faço morada de possibilidades, avanço a saudade, a guio, torno-a o vício, o tento, e tento, inspiro a respirar, respiro, não deixo parar.
Te culpo, pela distância visível, que longa naufraga, ainda que rasa, não deixa ser de verdade, nos deixa a mercer, no entrave, nos prende a respiração.
Ambíguo culpado, impedido, o amor vestido de culpa, indefinido, sobra a distância medida, sigo os passos e os pés calejados tornam a respirar.

Segredo

Tenho contado, cada palavra dita, meu ditado, palavras perdidas no diário, na nuvem, no teto do quarto, quando imagino tenho você comigo e me bastaria, meia vida se fosse assim que viveria.
Sem ver, te conto os quatro cantos do meu quarto, meu dia e os detalhes entalhados, é a metade direita que soma, que aguarda, guardando na pequena bagagem, na mala traz a tona a vontade, sem tempo, sem jeito, já não sei como não ter você em todos pensamentos, como posso controlar se não tento? Como posso ter menos de você em meu peito?
Precipitado, como sempre do lado esquerdo soa o alerta, os ponteiros que param, parece que é mesmo o medo de perder, do passado, de respirar sem saber se há vida, antecipado, se há via para percorrer ao teu lado. Pudesse ser esse o último dia do segredo, puderá ser convicta, a clareza da certeza absoluta, mas é hora atrás de minuto, pressa, o absurdo, conto até 10 a cada segundo.
Desacelero, mantenho o silêncio, deixo ser teu também o segredo, espero me contar, quanto é a soma do que sente, os teus anseios, de que precisaria, que meia vida bastaria, se eu estaria, se haveria nós, se um dia haveria, amor.

Inerte sentimento

Aquecido o canto do quarto.
As paredes viradas, os retratos.
A estante abraçava, acolhia o passado.
Vivia a contar a respiração, assim se guiava
E a história em voz baixa o contava:
Haja ferro em gaiolas e grades,
Portas, passagens, corações na garagem.
Haja dias fechados, estreitos, sem passos,
Todos os dias trancados no quarto.
O quinto de sanidade soprado ao ouvido,
Prelúdio do ditado, o sexto sentido.
Via, era visto,
Desvia, deixa o caminho,
Via-se vivo, seu inerte inimigo.
Desvia, delira, desvisto esvazia,
Guardou, ficou, tornou-se mobília,
Em um canto, junto ao sofá, os retratos.
A estante o abraça, acolhe seus passos,
Dois, três, segue o compasso,
Senta-se, sente-se, abandona o diário.
Os tempos se unem, o tempo, seu fardo.

1/3 Terços

Um terço de mim está decidido, a deixar no passado, rebobinar o destino, a passar, ser seguido pela dúvida, viver a angústia de nunca saber, de ter desistido.
E dois terços insistem, em lembrar, de nunca ter esquecido, de trazer a parte, separado em partes, preencher cada espaço do incapaz coração emendado, ficar a mercê de um terço terceiro, que está convencido do mesmo. Desproporcional, como todo amor que conheço, pendendo ao erro de aceitar ser um terço.
É estranho o quanto eu sabia, mesmo antes de sermos inteiros, o quanto o nós imergia no meu conceito, proporcional a outro sentimento, onde estive, manjado, como posso ter tantos terços, de quantas partes preciso para ser inteiro? E quanto falta, quanto cabe em meu peito?
O terço no meu quarto esconde o que guardo, enraízado percebo, é tanto que cabe em um minúsculo espaço no peito. Basta uma sinapse e armazeno os seus traços, rabiscos invisíveis que criei, empoeirados. No que resta a dizer, o comando, a convencer-me de não mudar de plano, mas são terços de mais torcendo a estar ao seu lado, torcido, me vejo no abismo, e cismo a tentar voar, insisto, sinto, os terços transcrevo e deixo pra lá.

Alomorfia

Apesar do coração ater-se a bater parado, em seu inerte estado em que parou e tem estado, em segredo, em uma parte distinta do lado esquerdo, bombeava-se algo desesperado, na busca de se encontrar, de ser encontrado. Em algum momento os pés deixaram de gravitacionar, de leve, por inteiro, flutuavam sobre o mar, era uma nova órbita no peito, deixou de sentir-se embaraçado, pelo abraço, pela mão ao lado ou pelo corpo respondendo aos gestos inesperados. Era, e tudo era inspirado, o ar rarefeito, raro, junto ao cheiro, que o movia, de fato.
Não foi muito tempo até que a perda da gravidade o soltou por dentro, foi a primeira vez que rompeu-se, inundou-se de tento, fez-se canoa a naufragar, aos poucos cedendo, se doando, sedento. Do ar fez morada, sem limite de chão, sem estradas, sem vento, a seguir todos caminhos, sem destino, ia, indistinto, até que em algum momento gravitacionar já não mais fazia sentido, perdera toda a razão que havia conhecido, fechou os olhos, deixou o mar, virou oceano, sempre a voar.
Por fim emancipou-se do tempo, passaram os dias como anos, fez-se presente, tornou-se detento, da liberdade, do amor, da cidade, vivera até viver não ser vívido, tornou-se o ar que respiro, tornou-se o eu que conheço, voou.