Alomorfia

Apesar do coração ater-se a bater parado, em seu inerte estado em que parou e tem estado, em segredo, em uma parte distinta do lado esquerdo, bombeava-se algo desesperado, na busca de se encontrar, de ser encontrado. Em algum momento os pés deixaram de gravitacionar, de leve, por inteiro, flutuavam sobre o mar, era uma nova órbita no peito, deixou de sentir-se embaraçado, pelo abraço, pela mão ao lado ou pelo corpo respondendo aos gestos inesperados. Era, e tudo era inspirado, o ar rarefeito, raro, junto ao cheiro, que o movia, de fato.
Não foi muito tempo até que a perda da gravidade o soltou por dentro, foi a primeira vez que rompeu-se, inundou-se de tento, fez-se canoa a naufragar, aos poucos cedendo, se doando, sedento. Do ar fez morada, sem limite de chão, sem estradas, sem vento, a seguir todos caminhos, sem destino, ia, indistinto, até que em algum momento gravitacionar já não mais fazia sentido, perdera toda a razão que havia conhecido, fechou os olhos, deixou o mar, virou oceano, sempre a voar.
Por fim emancipou-se do tempo, passaram os dias como anos, fez-se presente, tornou-se detento, da liberdade, do amor, da cidade, vivera até viver não ser vívido, tornou-se o ar que respiro, tornou-se o eu que conheço, voou.

Invisível

Não peço que me note, mas anote, as paradas súbitas do coração acelerado, é intencional, não tenciono os músculos a funcionar. Minha fraqueza, sempre a mesma, o ponto cego, entre a total falta de luz e a clareza, o ego, no escuro, inapto a enxergar, isso é tudo, tudo o que poderia ser.
Tem horas que te encontro em meu pensamento, essa é a razão que uso para manter o movimento, a rotação, eu cedo, te deixo dentro, até que em algum momento, inesperado, estou inspirando o seu cheiro intragável, esquentando os restos do amor no prato, deixando ser suficiente, acredito, estou consciente, aceito a parte que me sobra, as sobras do seu desejo, preencho, até que me pego preso, enquanto troco de lugar, aceito a cela e te deixo voar.
Me pergunto, que tipo de amor é do seu conhecimento, o que constrói pontes ou o elo entre a aceitação e o afago ao ego. Questiono, o quanto posso manter desses desejos, da fraqueza, o quanto aguento, até perder a essência, até ceder a indecência de um amor refutável, ficar estagnado, encarcerado pela falta e da falta, sobrar, e da falta, fazer-te amor, fazer-te amar.

Despercebido

Passou mais um vagão cheio de corações vazios, tanta gente, incosciente, tentando crescer, ser gente. Não digo que falta sangue a circular, são mil litros por segundo, mas isso é tudo que passa, despercebido, a bombear.
Encontro inerente a essa gente, a falta do sim que defini seu egos ou os torne ternos a razão. Não falta cura, falta vertente, falta ver-se no outro, certamente, falta perceber o vagão vago e, ao lado, outro a esvaziar, o vagão partindo, outro partido e outro a acompanhar.
Propomos todos essas teorias do que somos, mas no fim contamos mais algumas estações, o ano acaba, a vida passa e o que temos é a essência do medo em todos momentos a nos padronizar, a rachadura do espelho, deixando-nos destorcidos, torcendo a melhorar, torcendo a última gota do sorisso forçado, o olhar sobre o ombro, a insegurança, a última dança do baile de máscaras, a desmascarar companhia, enquanto esvazia o coração e traz o vagão que acomoda, nos leva, ida e volta, meia volta, volta a circular.
Há amor demais, em teoria, e do mais pode se tirar uma parte, deixar a trilha de migalhas, guiar o caminho, iluminar a estrada, polimerizar.